Christina nos deu um álbum num momento onde existiam várias dúvidas: Será que ela está desistindo da carreira? Será que ela realmente está trabalhando em um álbum? Será que ela dá conta nessa época de streaming? Estas eram apenas algumas perguntas dentre outras que assombravam a cabeça de fãs e amantes da música de um modo geral, afinal Christina nunca foi uma cantora restrita à sua fã-base.

Talvez no pior momento de descrença de sua carreira, Christina nos oferece uma experiência sonora chamada LIBERATION, disco de que se faz tão necessário nos dias de hoje; de uma qualidade dificilmente atingida por suas colegas mais novas e que, sem dúvidas, irá ser relevante por muito tempo, como tem sido uma marca registrada em seus trabalhos, desde Stripped, talvez – sem desmerecer os feitos inegáveis do Christina Aguilera, seu primeiro álbum.

Pouca coisa foi dita por Christina ou sua equipe durante o processo de gravação do disco, não houve promessas para álbum que viria a se tornar um dos mais relevantes do mundo da música em 2018. Christina foi a produtora executiva do disco o que significa ser a principal responsável pela seleção de produtores, pelo desenvolvimento do conceito e pela escolha de cada faixa a entrar na tracklist. Christina teve participação efetiva no álbum chegando a colaborar na composição de algumas faixas e estando intimamente ligada a todo projeto, o que implica nesse caso, assumir os inúmeros riscos desse retorno tumultuado que poderia descartá-la de vez. A pressão era tão grande quanto as dúvidas sobre as músicas do disco e seu desempenho como cantora. Christina havia chegado num ponto crítico onde as dúvidas eram mais constantes do que as certezas.

Os desesperançosos críticos (de revistas conceituadas, de revistas nem tão conceituadas assim e seus “fãs”), que aguardavam por um fiasco musical certo, caem de quatro pelo projeto idealizado por ela. Sobre o título do álbum, Aguilera explicou:

“Eu queria ter um título que tivesse um significado sobre me libertar de qualquer coisa que não fosse minha verdade. Esse é um constante pensamento na vida de todos: toda vez que você se sente sufocado em uma situação atual na qual surge o pensamento de que você não é você mesmo ou que está sendo atolado pela opinião de outras pessoas. Ou quando você se sente como se estivesse preso em um lugar estagnado”.

Em maio de 2018, na capa da revista Paper, Aguilera apareceu sem maquiagem e sem retoques, dizendo: “Estou no lugar, mesmo musicalmente, onde um sentimento libertador poder despir tudo de volta e apreciar quem você é e sua beleza crua”. O estilo de fotografia do ensaio foi escolhido para a obra de arte do álbum ‘Liberation‘ – posando com um olhar natural. A capa da edição padrão foi revelada no site da Aguilera em 3 de maio de 2018. A edição da Paper onde Christina aparece sem maquiagem foi uma inteligente reintrodução, podendo ser comparada com a Rolling Stones onde ela está vestida apenas com uma guitarra, na promoção de Stripped. Aqui vemos dois atos da mesma artista se despindo; no primeiro ato ela se despe da imagem de garotinha, no segundo ela esta despida de qualquer armadura, como se falasse no olhar “Oi, eu sou a Christina.”

A Billboard descreveu a terceira faixa, “Maria”, como pulsante. Aguilera comentou que a influência por trás do título era a personagem de Julie Andrews no filme, bem como seu nome do meio, acrescentando:

“Dentro de minha casa, uma forma de escapar [do caos da violência doméstica que ela e a mãe sofriam] para mim foi abrir a janela do meu quarto e cantar para o mundo fingindo. É sobre voltar para aquela garotinha que só quer cantar pelas razões certas, não necessariamente por charts e todas as coisas que esse tipo de negócio faz com você faça ao longo dos anos, moldando a forma como você olha para fazer música…”

A introdução de “Fall in Line”, o dueto com Lovato, é a faixa “Dreamers”, que “apresenta um grupo de jovens que declaram objetivos como ‘eu quero ser jornalista’, ‘eu quero ser ouvida’, ‘Eu quero ser presidente’.  ‘Fall in Line’ foi descrita como um hino feminista. Aguilera afirmou que a faixa foi gravada há alguns anos e antes de movimentos como o Time’s Up e o movimento Me Too aparecerem. Ela acrescentou: “É uma música que precisava ser ouvida. Por causa do que eu testemunhei quando eu estava crescendo, eu sempre me senti muito motivada a ter uma voz que minha mãe nunca teve na minha infância”.

Lembrando… 6 anos sem lançar material dentro de uma indústria musical sofrendo metamorfoses constantes, uma gravidez, uma mídia invasiva, manipulativa e cruel, fãs cansados e descrentes e mesmo assim Christina vai lá e faz e vale frisar… Sem promessas. Sem prometer voz ela entregou performances vocais impecáveis. Sem prometer hit, ela foi ovacionada no Billboard Music Awards ao performar Fall in Line com Demi, onde uma plateia de pé assistia uma das vozes mais poderosas dos últimos 20 anos voltar e cada olhar gritava numa única voz: “ela voltou!” Sem promessas e sem ajuda da sua gravadora ela colocou seu álbum no Top 10 da Billboard Hot 200.

Em total resignação e de forma silenciosa, Christina confessa seus pecados, seus medos, sua rebeldia, sua experiência em sua obra mais marcante. Um retrato perfeito que uma pequena menina chamada Maria que lançada aos lobos, viu sua vida passar diante de seus olhos. Tanto que, numa confissão honesta, a mulher Christina diz que “faria tudo novamente sem pensar duas vezes”.

A melodiosa introdução chamada Liberation que abre o álbum tem indagações como “Onde você está?! Você está aí? Lembre-se”… que logo achamos que Christina diz para a menina Maria, mas e se for para você?! Se essas perguntas forem estendidas para sua fã base?

Fica a reflexão… Será que ainda lembramos o significado da Christina para nós diante de um cardápio de cantoras que, ironicamente, querem a popularidade da Britney, porém anseiam pelo poder criativo e libertador que só a Christina soube obter – à custa de sacrifícios? Será que saberemos dar valor à artista que, em nome da qualidade de sua arte, abriu mão da promoção dos seus trabalhos, das suas músicas nas rádios, mas mesmo assim se faz relevante suficiente para ser ouvida, buscada, aclamada? Será que ainda estamos aqui por ela? No Twitter, a conta do Grammy disse sabiamente: “o mundo é da Christina Aguilera, nós apenas moramos nele.” Bem, para Christina sua Liberação teve um preço alto, mas devemos admitir: o reconhecimento merecido é, de fato, um decisivo indicativo que ela fez o melhor. Como sempre ela entregou o melhor!

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Fabio MeloPedro Henrique Recent comment authors
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Pedro Henrique
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Pedro Henrique

Uau… Belo texto, não é novidade que mais uma vez Christina nadou contra a maré e nos entregou uma verdadeira obra de arte… Só queria que ela estivesse divulgando mais o album, mas teremos turnê por aí neh… “diante de um cardápio de cantoras que, ironicamente, querem a popularidade da Britney, porém anseiam pelo poder criativo e libertador que só a Christina soube obter” Pura verdade, estava me perguntando isso esses dias, como seriam os albuns das cantoras de hj se elas tivessem a frente do trabalho? Tive um pequeno gosto disso no album Revival da Selena Gomez, nunca dei… Read more »

Fabio Melo
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Fabio Melo

Christina Aguilera me ensinou muita coisa… criei um laço íntimo com a música como nunca na vida… pude aprender a apreciar a música de verdade, estudá-la, entender como tudo funciona a partir do momento que comecei a conhecer e entender quem é Christina Aguilera e me desprendi de charts famosos e outras paradas simplesmente por entender o artista que está atrás de um álbum, de uma obra como é o trabalho de Christina Aguilera. Liberation é um trabalho de grande representatividade e nos mostra mais uma vez que tipo de consciência devemos ter em relação a música, a vida e… Read more »