A edição virtual da revista Billboard fez uma grande matéria com direito a uma carta aberta feita por Christina Aguilera falando sobre o seu single Dirrty, revolucionário para a época. Confira só a matéria que traduzimos na integridade e com exclusividade para vocês:

“Você só pode ter 21 anos uma vez”
Christina Aguilera fala porque Dirrty ainda é seu video preferido dentre seus vídeos.

Esta semana, a Billboard está celebrando o videoclipe com uma semana de conteúdo que analisa o passado, o presente e o futuro do vídeo, no momento em que parece ser mais relevante do que nunca. Aqui, a ícone do videoclipe pop Christina Aguilera faz um retrospecto do icônico clipe que ela ainda vê como sua favorita de todos os tempos: a ousada, fortalecedora, à frente de seu tempo “Dirrty“. Vamos ser sinceros: o videoclipe “Dirrty“, de Christina Aguilera, é importantíssimo. Ela sempre soube disso, mesmo que o resto do mundo demorasse alguns anos para entender.

É verdade que o visual de 2002, para o single principal do álbum Stripped, serviu como ponto crucial de inflexão em sua vida profissional. Saindo de uma vitória como a Artista Revelação do Grammy e com sucessos no topo da Hot 100 como “Genie in a Bottle” e o remake de “Lady Marmalade“, a cantora pop teen e ex-estrela da Disney levou o seu segundo álbum para desafiar os limites do estilo e do som já estabelecidos ao seu redor. Foram embora os olhares de paquera e longas caminhadas na chuva de seus primeiros clipes, substituídos por luta suja, rachaduras sem sentido, barulhos de moto, reboladas, cenas em que Aguilera é literalmente cercada de músculos e Redman, fazendo um rap particularmente brincalhão ao longo de um ritmo crepitante.

Em retrospecto, o vídeo dirigido por David LaChapelle é um artefato essencial para o cenário da música popular no início dos anos 2000, representante dos super-astros da superprodução da virada do século, deixando para trás sua imagem limpa e abraçando-se a uma imagem mais madura (leia-se: escandalosa!). Muito antes que os Jonas Brothers abandonassem seus anéis de pureza e Miley Cyrus lançasse seu vigoroso twerk, uma geração inteira de titãs do TRL – Backstreet Boys, NSYNC, Britney Spears – tiveram que descobrir como crescer no centro das atenções: ser provocativa, sem alienar seus jovens fãs e seus pais que comprariam ingressos para seus shows. Em seu próprio caminho explosivo, o vídeo “Dirrty” foi o momento de Aguilera para se declarar, não sendo uma garota, mas definitivamente sendo uma mulher.

Mas não é por isso que o vídeo é importante – muitos artistas adolescentes evoluíram para adultos, com níveis variados de roupas sensuais e temas líricos maduros. A verdade é que “Dirrty” era um grito de guerra. Para Aguilera, “Dirrty” era menos sobre sexualidade do que desafio – em (literalmente) enlamear uma imagem primitiva, em lutar por sua própria agência como uma jovem artista feminina no sistema de grandes gravadoras. Nenhum dos outros videoclipes de Aguilera provocou uma reação tão pronunciada, incluindo um esboço de Saturday Night Live em que Aguilera é retratada como um sulista idiota; críticos horrorizados comparando-a com Girls Gone Wild; e colegas artistas como Shakira e Jessica Simpson expressando preocupação com isso. No entanto, “Dirrty”, diz Aguilera agora, acabou por dar um exemplo para as mulheres jovens assumirem o controle de seus corpos; é a razão pela qual o vídeo ainda significa muito para ela.

“O corpo feminino é algo que eu acho bonito, e é tudo sobre como você o possui, na verdade, e não o explora para dar prazer a um homem”, diz Aguilera à Billboard. “Se você possui seu próprio corpo e sua própria confiança, então se torna algo fortalecedor. ”
Durante uma semana em que a equipe da Billboard nomeou “Dirrty” um dos maiores videoclipes do século 21, a estrela pop de 37 anos – que retornou no mês passado com Liberation, seu primeiro álbum em seis anos – refletiu sobre a criação e importância do visual, incluindo sua cena favorita para filmar, o papel que o gênero desempenhou na repercussão e a força no coração de Stripped, que também incluiu os singles de sucesso “Beautiful” e “Fighter.” (Nota: esta entrevista foi editado para maior clareza.)

Aguilera: [É] meu vídeo favorito que eu já fiz, para ser honesta – em uma nota pessoal e divertida, porque é tão libertador, e foi o primeiro em um álbum que fala sobre encontrar minha própria independência dentro da gravadora. Foi numa época que se tratava muito de uma imagem pop-clean dentro da cena pop, no qual vendia esse estilo como se fosse um pacote … Mas eu estava sendo eu mesma. Eu já tinha feito “Genie in a Bottle”, “Lady Marmalade”, e estava prestes a atingir a maioridade, fazendo 21 anos, sendo livre e fazendo um álbum chamado Stripped – que tinha uma conotação sexual na época, mas que na verdade não era tão sexual assim. Foi mais sobre estar sendo algo que não era real para mim e para a pessoa no qual eu estava me tornando.

Eu tinha um monte de pensamentos e emoções que senti que ainda não foram expressadas e ainda não tinham sido ouvidas de uma perspectiva feminina dentro do meu gênero. Eu queria mostrar todos os lados do meu disco. Foi muito controverso na época, e havia um monte de pessoas mais heterossexuais que se opunham bastante a mim, que acabaram me conhecendo depois por outra coisa, em uma imagem diferente. Mas eu precisava ser eu mesma e me expressar, e a sexualidade sempre foi algo que me sinto confortável em expressar. O corpo feminino é algo que eu acho bonito, e é tudo sobre como você o possui, na verdade, e não o explora para dar prazer a um homem. Se você possui seu próprio corpo e sua própria confiança, então se torna algo fortalecedor.

Para mim, “Dirrty” era tudo sobre ter, poder e possuir a minha sexualidade pela primeira vez, e não sentir que usar minha voz era algo que vinha acompanhado a um pacote ou a uma marca ou para o comercialismo. Era algo que eu estava fazendo por mim mesma e sendo um pouco ousada e me divertindo com isso. Quero dizer, dar o nome de uma música de “Dirrty” (Sujo) – não tem que ser perfeita, não precisa ser limpa, cabelo perfeito e unhas bonitas. Vai ser um pouco despenteado, vai ser um monte de pessoas ousadas e um monte de personalidades diferentes.

No vídeo nós tínhamos pelúcias, tínhamos boxe, tínhamos motos sujas, Redman e um cabeçudo musculoso. Meu Deus, nós tivemos tantas pessoas incríveis naquele vídeo, e foi um momento tão incrível de se sentir fortalecida e amando esse elenco cheio de loucos de personagens ao meu redor, e David LaChapelle com sua energia. Eu me lembro, especificamente, que aquela cena do chuveiro foi algo que eu me diverti muito fazendo – apenas estando na água, chutando-a com minhas botas, descendo, me ajoelhando e batendo os joelhos, apenas sentindo a água. Foi tão libertador. Jamais esquecerei esse momento: ser capaz de ser uma jovem e cuidar de meu próprio mundo naquele momento.

Também foi uma época em que, aos 21 anos, você está explorando as baladas, saindo mais, vendo o que existe por aí. Você tem aquele lado rebelde que está sendo explorado. O engraçado é que eu definitivamente era a última a descobrir as coisas. Em muitos sentidos da palavra, levei um tempo para ganhar experiência. Eu definitivamente não era uma menina má, e eu não era tão rebelde. Eu sempre tive esse foco e esse sonho e essa dedicação para o que eu queria realizar na minha vida.

Então, “Dirrty” não era nem mesmo um reflexo dessa imagem de garota malvada – era apenas minha libertação e minha diversão. E, se você realmente quer ver isso da melhor maneira possível, eu não estava nem mesmo usando drogas, ou fazendo coisas às escondidas. Eu estava expressando isso na câmera, sendo livre, sendo criativa, explorando as energias criativas ao meu redor com o meu coreógrafo, na época Jeri Slaughter – que fez um trabalho incrível com isso, eu pensei. Quero dizer, este vídeo realmente mostrou a garota branca original fazendo twerk, para ser honesta! Era definitivamente que, quando eu descia, “mostro-lhe uma coisinha, no chão…” Esse foi o momento que eu fiz o vídeo se tornar famoso, eu causei aquele alvoroço no qual eu sabia que seria escandaloso.

Foi muito difícil passar pela repercussão do vídeo. Havia muita, eu acho, discriminação de gênero com isso. Porque aqui você tem bandas de rapazes fazendo movimentos sexuais até a morte no palco, e todas essas garotas gritando, e ninguém realmente diz nada sobre isso. É só “coisa de homem” e, mais uma vez, estamos rotulando garotas que tentam ser donas de sua sexualidade e não apenas usá-las para satisfazer o prazer de um homem. Existia muita vergonha enquanto eu estava fazendo aquele vídeo. Por mais divertido que fosse, e eu estava cercada por uma equipe que me dava muito apoio para que eu fosse autêntica.

Eu vi a injustiça muito de perto, e eu realmente queria transformar isso em uma conversa, quando alguém iria me questionar sobre isso. Mesmo quando eu notava uma jornalista que fica chateada sobre o ser sexual ou o que estava acontecendo, eu diria: “Vamos conversar sobre isso – por que isso te aborrece? Por que isso afeta tanto você em um nível forte e pessoal?” Porque eu pude ver que algumas pessoas não estavam superando isso. E é interessante agora, olhando para trás, é um vídeo com essa declaração, e é muito manso em comparação com alguns dos vídeos que até vemos hoje em dia. Além disso, com algumas das escolhas de figurino e coisas que as pop stars femininas estão usando sem medo agora, o que é tão incrível … naquela época, se alguém andasse em um tapete vermelho usando muitas das coisas eu vejo outras estrelas pop nesta geração usando, eles ririam da cara da pessoa, ridicularizariam e se divertiram muito. Essas pessoas não teriam uma carreira.

Agora, coisas que não são “normais” estão sendo muito mais adotadas. Coisas que são mais arriscadas são muito mais apreciadas por serem destemidas. E agora também temos mídias sociais nas quais você pode expressar sua opinião e falar sobre o que acredita e abordar suas ações imediatamente, além de defender outras mulheres que você apoia e com quem você se conecta. Com as mídias sociais, essa é a vantagem disso. Naquela época que eu estava saindo, eu só tinha a voz através da mídia externa. Você precisava passar a imagem através da criação da sua arte para o que a imprensa estava falando sobre você, e quais palavras eles escolheram para usar em seus artigos. Então, foi muito difícil. Mas eu me mantive firme e, sinceramente, estou tão orgulhosa de mim mesma por fazer isso. Em uma idade tão jovem, foi difícil, e eu costumo ser uma pessoa muito sensível e vulnerável. Mas a integridade é muito mais importante para mim do que qualquer outra coisa.

E então o que você faz [depois de “Dirrty”]? Você acerta dois coelhos numa paulada só com “Beautiful” em seguida, e “Fighter”, e você percebe que tudo foi feito com um propósito. Eu estou mostrando os muitos lados de ser uma mulher forte: um pouco sobre possuir a minha sexualidade, ser capaz de ser vulnerável e possuir sua própria vulnerabilidade, e então ser capaz de se defender e entender o seu passado. Falando com aquela garotinha que vive dentro de mim – que então se torna aquela voz interior (the voice within) – tudo é um grande propósito. Então, hoje tudo isso já é um ciclo fechado, mas tudo teve que começar em algum lugar e chamar a atenção das pessoas e acordá-las… Você só pode ter 21 anos uma única vez, e houve uma primeira vez para esses caras, e foi uma coisa bem épica.

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of