Christina Aguilera: De porta-voz da comunidade LGBTQ+ à vítima de bullying.

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Semana passada postamos aqui no site um artigo escrito pelo jornalista inglês do HullPost Uk e ativista LGBTQ+, Yusuf Tamanna, no qual falou sobre as contribuições da cantora para a comunidade através dos anos e faz um chamado para: “Apoiarmos a Christina”.

Esta semana trazemos o artigo do nosso colaborar na nova coluna de opinião, Carlos Armando. A discussão começou em nosso grupo de fãs do Facebook, “Christina Aguilera -Fighters, e você pode opinar a respeito aqui. Confira só a sua contribuição para a nossa seção de Colunas:

De porta-voz da comunidade LGBTQ+ à vítima de bullying.

Ao fazer uma sondagem nas seções de comentário dos vídeos do Youtube, publicações em redes sociais, comentários em blogs da internet sobre Christina Aguilera, tenho notado o imenso número de ataques que a cantora recebe por partes de homens, em sua maioria gays.

Chamam Christina de: “Flop”, “gorda”, “irrelevante”, “olha que lábios feios”, “esta outra vende mais” ,“a única coisa que faz é gritar”, “esta outra é melhor”… 

Sempre a comparam com alguma outra cantora, sobretudo outras cantoras mulheres, diminuindo-a e tirando a sua validade e seu tanto. Sempre buscam diminuí-la ao nada. Esses são apenas alguns exemplos entre o vasto mar de ofensas e acusações que a cantora recebe. Não esquecemos que o Perez Hilton (Blogueiro gay americano) fez uma grande campanha para desprestigiá-la durante anos. Sendo na época do “Bionic” o momento em que mais a atacou fortemente. Rixas e brigas, muita vezes criadas e alimentadas por homens gays que colocam a sua “diva” contra outra.

Dentro do ambiente gay, existe uma enorme misoginia constatada, um enorme desprezo perante a mulher e a sua imagem.

É muito comum lermos comentários desrespeitosos de gays homens para com as mulheres. Alguns acreditam ter um “passe livre” para promover insultos e ofensas contra elas. Repetem o mesmo padrão machista e opressor do qual foram alvo contra eles e a legalização de seus direitos, durante décadas. 

É muito raro ver um fanático de Justin Bieber atacar o Justin Timberlake para provocar entre eles uma briga, comprando-os, humilhando um para enaltecer o outro, por exemplo. Este fenômeno do ódio gratuito e desprezo está instaurado com força na área feminina. Parece que é muito “divertido” ofender, b rigar e colocar uma mulher contra a outra, ao invés de apoiá-las e respeitá-las.

Em Stripped (2002), Christina tratou abertamente do tema pela primeira vez, na interlude Stripped intro (parte 2), ela desabafava:

Desculpe-me se eu não sou perfeita
Desculpe-me, eu não dou a mínima
Desculpe-me, eu não sou nenhuma Diva
Desculpe-me, apenas sei o que eu quero
Desculpe-me, eu não sou virgem
Desculpe-me, eu não sou uma vagabunda
Eu não vou deixar você me quebrar
Pense o que quiser

Será que ninguém se lembra de “Beautiful”?
Quando uma ainda jovem Christina, através de seu vídeo, retratou de maneira positiva um casal de homens de beijando, uma drag queen se olhando com alegria em frente ao espelho, como também outros casos de pessoas marginalizadas socialmente a quem Christina os convidada a aceitar a beleza que existe em ser diferente, e de não aceitar palavras mal intencionadas.

Em 2002, diferente de hoje, o empoderamento da comunidade LGBTQ não era  pauta das cantoras pop, com exceção de Madonna, que sempre batalhou pela causa. Poucas artistas realmente se aventuravam a opinar ou promover a causa, tanto que o beijo do clipe de “Beautiful” foi censurado em vários canais mundo a fora e a MTV só transmitia o clipe sem censura após à meia noite.

Christina, para aquela época, não só levou a sociedade a discussão sobre esse delicado tema como também sobre outros tópicos importantes, o racismo, a bulimia, a insatisfação a não entrar nos padrões de beleza socialmente impostos. Em pleno ano de 2002, uma época em que o matrimônio igualitário era um sonho distante, época onde havia ainda uma grande presença conservadora vigiando tudo, época da administração conservadora de George Bush nos Estados Unidos. Ninguém pode apagar ou diminuir a importância da trajetória de Aguilera para a comunidade LGBTQ quando poucos usavam dessa causa para se “promover”.

Ela ainda assumiu o risco de falar sobre este tema, dizer o que pensava, de ser temida sem se importar com  o que os demais pudessem fazer contra ela. Christina deu sua voz e semeou a esperança para que parte dos oprimidos pudessem alcançar a sua própria virtude e justiça ao clamar a verdade que somos todos iguais:“bonitos, não importa o que digam”.

“E aí? Eu não posso ter uma opinião? Devo ficar quieta só porque sou mulher? Me chama de vadia porque eu digo o que penso Acho que seria mais fácil pra você engolir se eu sentasse e sorrisse.”

Através de sua arte, a cristal do pop, tem inspirado a muitos a se rebelarem frente os abusos. Christina canta na primeira estrofe de “Can’t Hold Us Down” o seguinte. A música não só retratava a mulher em luta contra o patriarcado e o machismo, mas Christina também trazia para o vídeo os marginalizados, inviabilizados e as minorias em sua batalha por notoriedade e respeito. Naquela época, apenas a Madonna falava sobre feminismo e empoderamento da mulher no grande e influente universo da música pop. A canção ainda fala sobre rebelar-se contra os nossos opressores sociais, de fazer frente a quem pretende nos pisotear. Trata-se de rebelião e justiça, assim como de uma verdade incômoda que muitos querem calar.

No meu ponto de vista, o que senti como mensagem dessa canção foi algo como: Como consideraria o poder dado à outro de te humilhar só porque ele tem privilégios sociais? Eu não tenho voz? Será que eu permitirei que passem por cima de mim só por que você considera que sou inferior?

O álbum Stripped (2002) está inteiramente baseado em luta, em aceitar nossas diferenças (tanto físicas e raciais como sexuais), em sermos fortes, resistir frente a vida com amor e compaixão, sempre com ternura e com resiliência.

Politizada

“Apenas você pode se silenciar” – essa imagem fez parte da campanha “Declare Yourself”, feita em 2008 para as eleições dos Estados Unidos. O objetivo foi reunir diversos artistas para atingir os jovens a votarem nas eleições americanas daquele ano.

Em 2003, Christina participou da campanha Declare Yourself, destinada a instigar os americanos a participarem das votações presidenciais. Foi o diretor David LaChapelle que criou as peças visuais que foram promovidas na campanha, entre eles, uma na Time Square em Nova York. Christina sempre se mostrou contraria ao governo republicano e conservador do presidente George W. Bush.

Com várias outras celebridades (Ashley Judd, Cindy Crawford, Penelope Cruz e Elijah Wood), Christina participou da campanha Aldo Fights Aids em 2005, associação para sensibilizar contra a AIDS. Essa campanha foi divulgada mundo á fora e a sua arrecadação foi toda para a causa.

Já ano passado, Christina lançou o single “Change“, o qual a sua arrecadação foi para os familiares e vitimas do atentado na boate LGBTQ “Pulse” na Flórida, EUA.

Em seus seguintes discos “Back to Basics”, “Bionic” e “Lotus”, Aguilera seguiu com a mesma mensagem forte de amor e de paixão. Temas delicados e profundos como pedir perdão (Hurt), assuntos sensíveis como aceitar e conhecer nossa vulnerabilidade e força interior (I Am), temas encorajadores que falam sobre aceitar uma derrota mas ainda assim seguir de cabeça em pé (Best Of Me), são apenas alguns exemplos. Essas canções expressam a imensa rede de apoio e empoderamento que Christina teceu com sua música e sua forma de expressão livre e independente durante todos estes anos.

É por isso que tudo isso resulta em um inacreditável e imenso ódio, burla e desprezo que a cantora recebe da mesma comunidade que ela defendeu e se inspirou durante toda a sua careira.

Há um ditado, em meu país, que diz: “O diabo paga mal a quem bem o serve“, parece indicar bem o que acontece.

Eu sei que não são todos que gostam da Christina, mas os comentários ofensivas e abusivos estão demais.

Parece até que alguns esquecem a “idade das trevas” da história, em que as mulheres eram nada. Eram humilhadas, abusadas e deixadas à mercê dos homens, apenas para servir, para ser mais um adorno. Parece que ao ver mulheres fortalecidas como Christina –  empoderada, talentosa, independente e no controle total de sua pessoa e carreira – é motivo de aborrecimento para alguns.

Eles querem, com sua ofensa, apagar sua marca na música e na sociedade, silenciar sua voz, tentar apagar seu nome da história e borrar seu legado na história.

Mas querem saber? CAN’T HOLD HER DOWN!

E você sabe por quê? Porque Christina já acendeu milhões de luzes nos corações de cada um de seus seguidores. Ela já guiou milhões à encontrar sua voz interior (“The Voice Within”). E lá é o lugar onde nenhuma ofensa vale a pena, não vale a humilhação.

Esse é um espaço imaculado, um lugar que é chamado alma e isso é indiscutível. Faz parte de seu legado. Nas palavras da própria:

“Eu consegui muitos sucessos, tive a sorte de ganhar alguns Grammys e alguns outros prêmios, mas do fundo do meu coração, significa muito ser reconhecida por aquilo que mais importa para mim. E, honestamente, isso é ser capaz de me conectar com as pessoas em um nível universal e usar minha voz para inspirar outras pessoas a usar as delas.”

E você conseguiu, Christina! Nós somos muitos os que estamos usando nossas vozes inspiradas pela sua.

Quando você ler um comentário de um hater, não discuta as vendas e as realizações de Christina, porque já sabemos o quão bem sucedida ela é. Lembre-se que um legado é muito mais que apenas números. O importante é o grande impacto social que ela causou, e eles (haters) também sabem disso.

Ao invés de entrar na negatividade, se você for responder à eles, responda-os com algum trecho de alguma canção empoderada da Xtina, não entre em brigas de ego. Eduque a alma. Por fim, o amor sempre vencerá o ódio: Let there be love.

  • Carlos Armando mora em Caracas, Venezuela.
  • Participa de nossa comunidade “Fighters”, é artista visual e gráfico. Você pode conhecer mais do trabalho dele em seu Instagram, Facebook e Twitter.

E você, o quê achou da coluna de opnião do nosso colaborar?

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