Quando falamos em “performance icônica” ou em uma artista que é ícone, estamos falando em semiótica. Você pode me perguntar: E o que é semiótica?

Resumidamente, a semiótica é uma parte da filosofia da comunicação que estuda a construção de significados através de signos, sobretudo, os que não são tão explícitos. Há sempre uma mensagem que queremos passar de acordo com o que falamos e fazemos, e os signos são os elementos que carregam as representações desses significados.

A arte sempre foi uma expressão carregada de simbolismo. Pela sua própria subjetividade, liberdade criativa e possibilidade variada de interpretações abertas dos seus possíveis significados. Afinal, cada um vai interpretá-la de um jeito, de acordo com sua visão de mundo e do seu repertório cultural.

A apresentação de “Fall in Line, no Billboard Music Awards 2018, não foge a regra. Foi uma performance com cunho político e social, necessária para os tempos de hiper conservadorismo que vivemos no mundo onde as nossas vozes já não podem mais ser silenciadas.

Desde o momento que Aguilera pisou o red carpet, ela demonstrou porque é um ícone do empoderamento feminino da atualidade.

Christina sempre soube disso. Sempre se posicionou sobre o que acredita e o que não tolera e isso a torna um ícone: em semiótica, ícone é um signo que representa toda uma totalidade de outros.

Se falarmos que Christina é um ícone, ou que é icônica, significa dizer que ela representa uma categoria, uma classe, seja das pessoas que não tem vozes para se expressar, seja de mulheres cantoras que fazem um pop engajado. A maior ícone dessa categoria é a própria Madonna.

A icônica Christina Aguilera exalando poder e auto-confiança no tapete vermelho dos BBMas, ontem.

Assim, vamos explicar a nossa compreensão e interpretação da performance, dividindo-a em 3 atos teatrais: 

ATO 1: A SUPER ESTRUTURA

A performance se inicia com Christina Aguilera ao lado de dois soldados que representam, simbolicamente, a estrutura social sexista através das normas de gênero na qual os policiais (homens) assumem o papel de protagonismo no machismo da nossa sociedade. Local de poder este que repreende, não só as mulheres, mas qualquer comportamento desviante da heterossexualidade padrão.

Os outros soldados passam por ela e descem a rampa. O movimento é robótico, não natural. Na performance se torna claro que vivemos em uma sociedade patriarcal e machista, mas a masculinidade é também socialmente construída e as formas de atuação masculinas são aprendidas e controladas pelo sistema social vigente.

Não nascemos machistas, nos tornamos machistas. Homens machistas. Servos do sistema. Logo, um homem pode e dever, tentar libertar-se do machismo ao reconhecer os seus privilégios de gênero.

Os dois soldados a seguram pelo ombro em uma tentativa de controlá-la, para que o seu corpo e sua subjetividade sejam anuladas diante das expectativas sociais para o gênero feminino, a sua sexualidade e o seu comportamento (que deve atender os desejos dos homens).

ATO 2: A RESISTÊNCIA

De início, Christina resiste. Ela não se conforma e rompe com os parâmetros estabelecidos socialmente para o corpo feminino e isso fica nítido no momento em que olha para os soldados e eles a soltam perdendo o controle sobre o seu corpo.

A posição de poder está claramente representada na figura dos policiais que mantém a estrutura social, vigiando e monitorando o comportamento não só das mulheres, mas de todas as comunidades marginalizadas que fogem a heteronormatividade: como no caso dos homossexuais também.

A forma robótica dos policiais andarem representa que eles estão alienados pelo sistema, como se elas se tornassem servos deles. O que faz com que homens se tornem machistas compulsoriamente. Isso é representado na música, através da maneira com que se apresenta a visão do homem sobre a mulher em tom de marcha ditatorial:

É, dois, três
Direita, dois, três
Cale a boca
Empine seu traseiro para mim
Marche, dois, três
Dois, três
Quem te disse que você tem permissão para pensar?

O ato de rebeldia é exemplarmente punido pelo sistema representado pela figura dos soldados no momento em que a arrastam pelo braços conduzindo seus movimentos em uma tentativa de coagir seu corpo para obedecer às normas. Ela se tornou um boneco obediente ao sistema, controlada, agora perfeitamente adequada.

ATO 3: A SORORIDADE FEMININA 

A figura do Eclipse gera vária simbologias: è, tradicionalmente, associada ao momento de escuridão, a qual as mulheres vivem “a sombra” dos homens socialmente, e logo, após, o sol nasce e traz a luz, ressurge o empoderamento numa nova narrativa feminina.

Demi surge e Christina lentamente retorna ao topo para se juntar a sua companheira e, ao lado uma da outra, retomam o poder e o controle sobre suas próprias performances e corpos. Sonoridade feminina. A união entre as mulheres as torna mais fortes para resistir ao sistema machista e opressor.

O sol em muitas culturas antigas, representa o renascimento, a vida, energia. Na performance, simboliza a união feminina em prol da resistência contra o sistema patriarcal.

Duas gerações de mulheres lutando lado a lado contra o patriarcado. Diante da sua força, rebeldia e resistência, o sistema se rende, se desmonta aos seus pés e as aclama. Os soldados se ajoelham aplaudem e se resignam reconhecendo o poder feminino.

Ajoelhadas, tocam suas testas em sinal de respeito, humildade e reconhecimento diante da resiliência e poder da outra. A música lentamente cessa. Desce o pano.

Fim do primeiro terceiro ato.

Hino feminista. Performance icônica.

Christina e Demi representam a união feminina, o movimento de sororidade entre as mulheres.

Essa noite vai ficar para a história como a representação da importância de se repensar as questões de gênero e da força da sonoridade feminina e do empoderamento das “minorias”.

Ao final da apresentação Christina deu um show de sonoridade: curvou-se diante de Demi, num gesto de reconhecimento, respeito e gratidão. Demi, visivelmente emocionada, apenas disse: “Thank you, Christina”.

Vale lembrar que – sempre atenta e preocupada a questões sociais e por ter vivido o abuso físico e psicológico doméstico – Christina foi além com a proposta de Fall In Line. Veja o que ela disse sobre a música no seu Twitter:

“Para qualquer um que já se sentiu silenciado ou repreendido, os perseguidores da verdade e os com pensamentos corajosos… você pode liberar sua voz e quebrar as barreiras, nunca retroceda, e nunca siga as regras”. [tradução nossa]

Ou seja, esse hino não busca empoderar só as mulheres mas todos aqueles que sofrem abusos e são marginalizados e silenciados pelo sistema.

A heteronormatividade compulsória não afeta só as mulheres, mas também aos gays já que os comportamentos tidos como delicados, ou “femininos”, são repreendidos pelo alto grau de misoginia dentro da própria comunidade gay.

Os homens heterossexuais também acabam sendo vítima de um comportamento que, mesmo inconscientemente, reproduzem ao dizer que “isso é coisa de mulher”, “homem não chora”, “homem não pode fazer disso” e etc. É uma música com que todos, e cada um de nós, podemos nos relacionar ao vivermos situações de silenciamento e repressão. Um hino universal.

Lembrando que a arte é uma obra aberta, logo, são sempre possíveis inúmeras interpretações de acordo com o repertório individual de cada um, ok? Se você enxergou outros elementos e outras representações, sinta-se livre pra deixar um comentário expondo o seu ponto de vista. 

Texto escrito por: Paulo Marques e Murillo Nonato.

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Não tenho roupa pra um evento dessesPaulo MarquesBruno Recent comment authors
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Bruno
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Bruno

Bela interpretação dessa performance. Alguns detalhes acabaram por passar despercebidos, como eclipse e o nascimento do Sol.

Paulo Marques
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Obrigado Bruno, fico feliz com o seu comentário <3

Não tenho roupa pra um evento desses
Visitante

Arrasou na analise migo