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Biografia

parte 1

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Ativo 7grama
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Christina Aguilera

A pequena garota com a grande voz

por Mário Rick

Playlist da Biografia

Nós preparamos uma playlist especial para você poder ouvir enquanto faz a leitura da biografia. Selecionamos músicas que tem a ver com esse momento em que a história se passa. Aproveite e entre nessa imersão.

Prólogo

A história de vida da Christina Aguilera começa muito antes do seu próprio nascimento. Aguilera foi o tipo de pessoa que nasceu com um dom e sempre esteve destinada a ser uma cantora poderosa. Seu talento com a voz era nítido. Já cantava quando ainda usava fraldas. Seus instintos naturais reagiam a tudo que fosse musical. Foi influenciada com música desde muito cedo e era fascinada pela Julia Andrews no filme A Noviça Rebelde. A harmonia musical estava gravada em seu DNA.

Para conhecermos suas principais influências e suas verdadeiras origens, precisamos viajar no tempo. Retrocederemos para contar, primeiramente, a história da família Fidler, raízes maternas da cantora. Conhecer a história de vida da sua mãe e sua avó. A ancestralidade praticamente preparou o seu destino estrelado.

Venha conosco viajar para os anos 60 e conhecer a história de Christina Aguilera, antes mesmo dela chegar a esse mundo… E não esqueça de dar o PLAY na nossa playlist ao lado.

Capítulo 1 - Gênesis O começo O início

rochester
Delcie Mabel Fidler
Delcie Mabel Fidler, mãe de Shelly.

Shelly Loraine Fidler era apenas mais uma garota, filha de Lowell Marley Fidler e Delcie Mabel Fidler, nascida no dia 23 de Março de 1960, no pequeno distrito de Rochester, na região metropolitana de Pittsburgh, na Pensilvânia, Estados Unidos. Suas mãe, Delcie Fidler (Delcie Dunfee quando solteira) era  de raízes predominantemente Irlandesa/Galesa e Holandesa. Seu pai, Lowell, tinha raízes alemãs.

Lowell Marley Fidler
Lowell Marley Fidler, pai de Shelly.

Seu pai era técnico de laboratório e chegou a servir a segunda guerra mundial, porém assim que voltou, faleceu logo em seguida. Shelly foi criada a maior parte da sua vida pela mãe, pois seu pai faleceu ainda quando ela era uma criança. Delcie jamais chegou a casar-se de novo. 

Shelly cresceu e viveu muitos anos na mesma casa, no minúsculo subúrbio de Rochester, sempre rodeada da família e ainda cultivando a cultura da Irlanda, tendo uma rotina tipicamente irlandesa. Seus ancestrais vieram da Irlanda para os Estados Unidos. Seu bisavô, Oliver Dunfee, era gaélico e mal conseguia falar inglês quando veio para a América. Shelly tem 1 irmão: James Marley Fidler, conhecido como “Jim”.

Dunfee

"Crescer em um ambiente predominantemente irlandês, facilitou a minha apreciação dos costumes irlandeses e as tradições familiares".

Shelly Kearns

Biografia – Parte 1
Shelly Loraine Fidler
Shelly na Orquestra Sinfônica da Juventude de Pittsburgh, 1976.

Ela, que viria a se tornar a mãe da Christina Aguilera anos mais tarde, tinha uma grande paixão pela música desde muito nova, influenciada por sua mãe. Ainda quando Shelly era novinha, sua mãe costumava passar vários exercícios de piano para ela fazer. Gostava tanto de aprender com a mãe que o seu talento foi crescendo com o passar do tempo. Adorava sentar no piano, colocar seus dedos sob as teclas e dedicava-se a aprender sobre música, instintivamente. Era musicista autodidata. Amava tocar instrumentos, porém sua fixação era com o violino e o piano. Chegou até a ter o seu momento de fama quando, encorajada pela mãe, aos 16 anos de idade, viajou em turnê para a Europa tocando com a ‘A Orquestra Sinfônica da Juventude de Pittsburgh‘, que era feita só para os adolescentes. Embora outras mães, especialmente na época, pudessem estar preocupadas em deixar uma filha vagar para outro continente, Delcie não tinha tais escrúpulos. Ela possuía um senso de independência incrível de que ela passava para a filha e que Shelly também passaria para seus filhos.

Shelly Loraine Fidler
Shelly tocando violino na Orquestra Sinfônica da Juventude de Pittsburgh.

A linhagem de mulheres fortes e confiantes, como da família Fidler, começou com Delcie logo quando seu marido se foi. Ela resolveu levar a vida cuidando sozinha da casa e dos filhos. Essa confiança, empoderada pela força feminina, influenciou na criação e formação da personalidade de Shelly e, década mais tarde, também na de Christina. Shelly aprendeu desde nova que mulheres podem ser fortes e autossuficientes.

Devido aos estudos de idiomas nos tempos de colégio, Shelly aprendeu a falar o Espanhol fluentemente e decidiu entrar para a faculdade de tradução em espanhol. Sua paixão pelo idioma era grande. Momentos mais tarde, começou a trabalhar de tradutora. Sentia-se realizada em poder estudar e trabalhar com o que realmente gostava.

Shelly passou a frequentar a Universidade Mórmon de Brigham Young, em Provo, Utah, nos Estados Unidos. E durante sua passagem, acabou se esbarrando com um latino, chamado Fausto Xavier Aguilera, bem no final da década de 70, em 1979. O sangue rapaz latino a encantou, assim como toda cultura hispânica a encantava.

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guayaquil
Fausto Romeo Aguilera Calderon
Fausto Romeo Aguilera Calderon, 1958, pai de Fausto.

Fausto Wagner Xavier Aguilera nasceu dia 4 de novembro de 1949, em Guayaquil, no Equador, filho de Fausto Romeo Aguilera Calderon e Edna Maria Monge Verduga. Seu pai, que também se chamava Fausto, serviu na Marinha do Equador e começou a carreira como comandante da base naval em Salinas. Depois de subir na hierarquia, foi promovido a capitão, trabalhando como instrutor na Academia Naval. Fausto e Edna juntaram sua família e imigram para os Estados Unidos da América, em busca de novas oportunidades e fugindo de um triste futuro de pobreza que o seu país estava passando. Fausto Wagner ainda era um jovem de 19 anos quando chegou na América com seus pais e outros dois irmãos, Johann e Yvonne. Eles foram uma das primeiras famílias hispânicas a imigrarem para Staten Island, em Nova Iorque. O seu pai começou a estudar na Escola Naval de Monterey, na Califórnia, e se formou como Engenheiro Elétrico. Começou a trabalhar como consultor marítimo para um escritório de advocacia de Manhattan. Ele morreu em Agosto de 2015 em Castleton Corners, seis meses depois da sua esposa falecer.

Edna Maria Monge Verduga
Edna Maria Monge Verduga, 1982, mãe de Fausto.

Edna Maria, sempre foi dedicada à família e nunca precisou trabalhar, era do lar. Ela era muito bem conhecida por ser uma ótima cozinheira e fazia questão de trazer a culinária tradicional equatoriana para dentro de casa. Seu ceviche era o prato favorito de toda família. Gostava de dançar baladas clássicas equatorianas e tinha o hábito de sempre dançar com o marido. Viveu até os 85 anos como matriarca de três gerações da família e morreu em Castleton Corners em Janeiro de 2015.

Seguindo os passos do pai, Fausto se alistou no exército americano assim que chegou no país, pois era o único meio de se sustentar, já que ainda não podia ingressar na faculdade. Já na vida militar, Fausto começou a ter uma nova rotina e passou a se mudar conforme a carreira militar exigia. Após um tempo, acabou indo para o Canadá, em Stephensville, Newfoundland, e se tornou sargento das Força Área Americana na Base da Força Aérea Ernest Harmon. Há alguns relatos de que Fausto conheceu Shelly nesse período, porém não existe nenhuma evidência de que Shelly esteve em Stephensville. O que sabemos é que Fausto acabou se mudando para Utah e a frequentar a Universidade Mórmon de Brigham Young, exatamente no mesmo período e local em que Shelly estava cursando o seu curso de Espanhol, em 1979.

Shelly e Fausto - Convite de Casametno
Raridade: Foto de Shelly e Fausto. Parte do convite de casamento, datado de Março de 1980.

Apesar de suas aparentes divergências: um homem militar disciplinado e uma musicista de espírito livre e mente aberta, o casal se apaixonou. Shelly, que estava envolta e totalmente encantada por tudo que envolvia a cultura latina e hispânica, se encantou com o jovem Fausto. Passaram a se conhecer melhor e começaram a namorar. Fausto tinha 30 anos e Shelly 19, a diferença de idade era grande. A única razão pela qual Shelly conseguia se comunicar com Fausto em sua língua nativa e roubar seu coração, foi porque Shelly estava indo para a faculdade para ser uma tradutora de espanhol e dominava o idioma com perfeição. Além disso, ela ficou profundamente fascinada com toda a cultura latina e deixou seus amigos da faculdade loucos falando sobre tudo o que havia aprendido sobre os alimentos, tradições e costumes que fazem parte da cultura latina. Shelly se encantava pelo universo latino e gostava de praticar seus conhecimentos em espanhol com o novo namorado. Faziam juras de amor em espanhol e ouviam muita música latina. Shelly era católica, porém, com a frequência na universidade mórmon e com a educação mórmon de Fausto, passou a frequentar a Igreja Mórmon de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Certo dia, Fausto foi informado que seu próximo destino seria mudar-se de volta para Staten Island, em Nova Iorque. Foi quando Shelly descobriu que estava grávida. “Meu Deus e agora?”, pensou Shelly. A iminência de Fausto partindo pra Nova Iorque e a sua gravidez, fizeram com que eles optassem por se casar o quanto antes. Se mudaram para o bairro de Grasmere, em Staten Island, morando juntos e sozinhos pela primeira vez. Shelly deixou a casa da mãe e estava pronta para começar a sua nova vida de casada, ao lado de Fausto. Se apressaram para  casar logo, antes que a barriga chegasse. A cerimônia aconteceu na mesma igreja mórmon que Fausto frequentava em Washington DC, no dia 06 de Março de 1980.  Mal podia se conter de felicidade e sua gestação começou a avançar com o passar das semanas. Shelly estava envolta pela alegria em poder ser mãe pela primeira vez e entrou de cabeça na gestação. Porém algo começou a ficar estranho dentro de casa.

“Fausto mudou seu comportamento a partir do momento que disse ‘sim’ na igreja. Eu me senti mais como uma propriedade sua do que como sua esposa. Eu não soube lidar com isso”.

Desabafou Shelly, anos mais tarde em um documentário que foi ao ar em 2003

No dia 18 de Dezembro de 1980, Shelly deu entrada na Maternidade Universitária de Staten Island. Era um dia comum de inverno, o vento gelado batia nas janelas do hospital, que espelhava um céu claro, sem nuvens. No momento em que chegou ao mundo, Christina Maria Aguilera teve sua voz ecoada pelos corredores do hospital. Aos que estavam ali ouvindo aquele bebê recém-nascido chorar, não poderiam imaginar que essa voz seria conhecida por todo o mundo, anos mais tarde.

CAPÍTULO 2

NASCE UMA VOZ

Christina Maria Aguilera. Seu nome americanizado com ‘h’, originário do latim ‘Cristina‘ – que significa morfologicamente ‘Cristã’ ou ‘Ungida por Deus’ – e o seu nome do meio, tipicamente hispânico e também cristão, ‘Maria’ – em homenagem à mãe de Fausto, Edna Maria – representa um compromisso entre duas culturas distintas. No momento em que a primeira filha do casal chegou para complementar a família, Shelly tinha apenas 20 anos e Fausto 32. Essa diferença de culturas, idades e temperamentos, deu origem à pequena menininha de rosto angelical.

Ela era miudinha, tinha os cabelos loiros e olhos azuis, diferente dos seus pais que tinham cabelos escuros. Christina puxou a genética por parte da sua avó paterna, a família Verdugo. Características como cabelos claros e pele branca lembrava muito um dos irmãos de Fausto. Christina nunca se quer chegou a conhecê-lo, mas tinha os mesmos olhos de tom de azul claro, meio acinzentado. O jovem casal estava esperançoso pelo futuro que teriam pela frente com o nascimento da filha. Logo após o nascimento, a família se mudou para a cidade vizinha de Nova Jersey.

“Meu Deus, Christina já nasceu cantando!”.

conta Shelly

A garotinha já apresentava um grande interesse pela música antes mesmo de falar. Shelly conta que ela gritava se mudasse o canal de TV que tivesse passando um programa musical. Quando passava com o carrinho de bebê embaixo de algum auto falante que estava tocando algum tipo de música, Christina rapidamente reagia levantando a cabeça e prestando atenção no que estava tocando. A bebê era nitidamente ligada à música desde quando ainda usava fraldas.

Antes da filha completar um aninho, Fausto contou para Shelly que havia sido transferido mais uma vez. Ela trabalhava como professora, tradutora de espanhol e musicista. Com essa nova notícia, teve que largar a faculdade e o trabalho para entrar de cabeça na vida militar que o marido levava. Ao se mudarem para San Antonio, no Texas, Shelly deixou para trás o seu maior sonho de terminar a faculdade e o trabalho que amava fazer. Foi uma escolha difícil e que a abalou fortemente. 

Não demorou muitos tempo para que mais uma mudança viesse acontecer. Só que dessa vez teriam que se mudar para o Japão e isso foi um balde de água fria: “Já assinei os papéis com o Exército”. Devido a esse fato, tiveram que se mudar de San Antonio para Sagamihara, no Japão. Estava deixando sua vida, amigos e parentes para trás e se mudando para um lugar totalmente novo. Era uma jovem mulher recém-casada e com uma filha pequena. Toda esta mudança começou a causar instabilidades em seu casamento e Shelly passou a queixar-se com mais frequência.

No Japão, Fausto e a família viveram em comunidades conhecidas como base militar residencial. Eram casas geminadas cedidas pelo governo. Shelly passou a se ocupar ensinando inglês para algumas crianças japonesas. Foi uma época difícil para elas. Christina naturalmente não tinha muitos amigos, pois não sabia falar a língua local e era de classe média baixa, então suas amigas acabaram sendo suas bonecas e ursinhos. Tal fato fez com que a relação mãe e filha ficasse com os laços mais fortes do que nunca.

Christina sempre gostou de chamar atenção. Shelly conta que uma vez estava recebendo seus alunos e todos trouxeram uma folha com desenhos da atividade e espalharam pelo chão. Christina começou a brincar de amarelinha em cima dos papéis.  Essa fixação por atrair atenção surgiu cedo e ficaria pior anos mais tarde quando a família aumentasse. Ela sempre inventava alguma coisa para atrair a atenção dispersa de Shelly. Embora Christina viesse a ter irmãos, durante seus primeiros anos de vida estava acostumada a ser tratada como filha única e não precisava dividir a atenção da mãe. Por causa disso, anos mais tarde ela mostraria um caráter maduro e forte, associado apenas à crianças que, como Christina, geralmente são mais avançadas, ambiciosas e maduras do que outros com a mesma faixa de idade.  Tal atitude causaria atrito entre Christina e outras pessoas por toda sua vida.

Certa vez, quando tinha três anos de idade, passeando de ônibus com sua mãe pela cidade, começou a cantar. Os passageiros se chocaram e comentaram com Shelly que “a voz dela era incomum e muito poderosa para uma menina tão pequeninha“. Cantava no banho. Gostava de ouvir sua voz ecoando pelo banheiro e as paredes chegavam a tremer. Anos mais tarde, Christina chegou a comentar que “A infância foi regada de performances jogando a toalha no chão e usando os frascos de shampoo como um ‘ikaphone‘”, modo no qual ela chamava o seu microfone.

Em casa sempre teve muita música latina, especialmente Julio Iglesias“, lembra Christina. A forte influência cultural do pai e a paixão do espanhol pela mãe, fizeram com que Christina tivesse a facilidade de cantar em espanhol. Aliás, o idioma era comum dentro de casa. Christina cresceu ouvindo e falando espanhol conforme ia aprendendo a falar e escrever.

Shelly passou a notar que o marido estava cada vez mais agressivo. Fausto reagia a tudo com força e brutalidade. Embora esses fossem os primeiros anos da vida de Aguilera, certamente isso acabou criando um trauma permanente na sua psique como criança em desenvolvimento. Era chamada de “Pirralha do Exército”, que era um termo comum usado para os filhos dos militares que viviam se mudando entre uma base militar e outra. Não durava muitos meses e novamente uma mudança acontecia, fazendo com que a família ficasse abalada e completamente ausente das suas raízes. Junto com essa vida dentro do exército, também estava o conhecido estilo de vida machista, rígido, autoritário e altamente disciplinado. Shelly vivenciou ameaças e agressões físicas dentro da sua própria casa, apanhando de uma pessoa fisicamente mais forte que ela. Então tornou-se super protetora com sua filha.

Estar longe, no Japão, distante da família e apenas com sua pequena filha, era devastador. Ela se sentia sozinha e impotente.  Elas aproveitavam que Fausto estava trabalhando e saíam pelas ruas do Japão para descobrir toda uma nova cultura. Sempre que saíam e iam às lojas, as pessoas tocavam o cabelo e diziam algo em japonês que era “Kawaii” e significava “que gracinha!”.

“Ela era o meu orgulho. A única alegria da minha vida. Algo que ninguém poderia mudar ou tirar”.

Shelly, mãe da Christina.

CAPÍTULO 2

INFÂNCIA TURBULENTA

O casamento de Shelly com Fausto foi difícil e assustador. A mãe era infeliz e as brigas entre o casal tornou-se cada vez mais frequente e perigosas. Fausto passou a abusar fisicamente de Shelly, pegando pesado. Ela não tinha condições de escapar do dilema em que vivia. Era uma mulher sozinha no Japão, dependente do marido financeiramente e com uma filha pequena. Não era só pedir o divórcio e deixá-lo para trás. Shelly também não dispunha de muito dinheiro para pegar um avião e voltar para a casa nos Estados Unidos ou de sustentar a filha sozinha. Estar no Japão, além de solitário, era torturador.

Vivenciando todo essa situação, a pequena Christina passou a ter um grande apego pela música, usando-a para tentar escapar da realidade que vivia dentro de casa. Cantava sempre para suas bonecas e ursinhos, tentando abafar os gritos da briga dos pais com sua voz. Gritava alto e cantava sempre que podia.

O conflito entre eles se deu ao fato da combinação do sangue quente latino de Fausto comparado ao sangue frio e calmo de Shelly. Apesar de Shelly ser Ariana e também ter uma personalidade forte e sua própria maneira de fazer as coisas, o conflito passou a ser constante. Talvez essa grande diferença de temperamento os fizessem se afastar cada vez mais daquele casal apaixonado que eram antes do casamento. Nos primeiros cinco anos de vida, Christina teve sua infância marcada por momentos turbulentos, traumatizantes e com muita violência dentro de casa.  Fausto estava sempre gritando, quebrando os móveis, dando tapas e empurrões em Shelly. Qualquer coisa, incluindo o comportamento normal das esposas e da filha, era um catalisador para agir com violência.

Certa vez, quando Aguilera tinha 4 aninhos de idade, começou a brincar, fazendo muito barulho e acabou acordando Fausto, que estava cochilando na sala. Ele levantou, descontrolado, brigou com Christina e bateu com força na sua boca, para que ela parasse de gritar. Usou tanto a sua força que chegou a deixar a boca de Christina cheia de sague, que escorria pelos queixos. Ao ouvir a confusão, Shelly correu para ver o que tinha acontecido e se deparou com sua filha ensanguentada. Ela perguntou o que tinha acontecido e Christina disse: “Papai queria tirar uma soneca e disse que eu estava fazendo muito barulho”. “Mas o que foi isso?”, disse Shelly para Fausto. “Eu ia dar umas palmadinhas mas acabei perdendo o controle, me desculpe”, disse Fausto ao ver a filha cheia de sangue. Esse foi o momento exato que Shelly sabia que ela tinha que colocar um fim na relação com seu marido.

Diante de tanto medo, Shelly chegou até a dormir com um spray de pimenta embaixo do travesseiro para se defender do marido, caso fosse preciso. Não sabia mais quando seria o próximo ataque, pois eles começaram a se tornar constantes. Sua integridade física e a da sua filha estavam em risco.

Com o passar dos dias, Shelly se sentia cada vez mais insegura e vulnerável. Quando as discussões e gritos começavam, Christina corria para o seu quarto, trancava sua porta e começava a cantar bem alto, para tentar abafar os gritos. Tentava achar o seu refúgio na música. Era apenas uma jovem garotinha, longe do seu país e com um conflito diário dentro de casa.

“Eu pensava: Em que posso mudar? Qual a causa disso? Onde estou errando?”.

Conta Shelly sobre os momentos que sofreu no Japão.

Os dias foram passando e, de repente, Shelly descobriu que estava grávida novamente. Recebeu a notícia com alegria e amor, mas cada dia que passava ficava mais preocupada com a vida em que sua filha estava levando ao lado de um pai bruto e durão. Uma gravidez em um relacionamento abusivo era preocupante. Mas Christina estava empolgada, pois iria ganhar uma irmãzinha.

Durante a gravidez, o exército americano transferiu Fausto de volta para a América. Christina tinha apenas 6 anos de idade e teria que voltar aos Estados Unidos. Desta vez eles foram morar em Fort Dix, Nova Jersey. Shelly voltou grávida e terminou sua gestão em solo americano. Estava se sentindo mais segura nos Estados Unidos e já pensava em como iria fazer para, além de proteger a si mesma, proteger duas filhas de um lar cheio de caos.

No dia 6 de Junho de 1986 deu a luz da sua segunda filha, na mesma maternidade em que Christina nasceu, em Staten Island, já que Nova Jersey era muito próximo da ilha. Decidiu chamá-la de Rachel Loraine Aguilera. O nome do meio veio em homenagem ao seu próprio nome, que também era ‘Loraine‘.

Agora com uma nova irmãzinha, Christina se sentia empolgada. Como irmã mais velha, gostava de ajudar a mamãe nos cuidados com a Rachel. Neste tempo, Shelly e Fausto brigavam constantemente e os incidentes começaram a aumentar. Christina, aos seis anos, perguntava à mãe todas as noites: “Mamãe, porque não podemos morar com a vovó? Eu quero morar com a vovó!”, se referindo à mãe de Shelly. Ao ver sua vida sucumbindo à desgraça familiar, decidiu arquitetar um plano de fuga e dizer adeus à vida abusiva.

Quando Christina tinha apenas 6 anos e logo após ter dado à luz de Rachel, em meados de 1987, Shelly arquitetou toda a fuga com suas duas filhas. Juntou dinheiro e esperou pela ocasião perfeita para ir embora. Tinha que ser um momento ideal para que Fausto não a impedisse. Certo dia, a ocasião apareceu. Fausto teve que sair por um longo período de tempo. Shelly soube que seria o momento perfeito. Então colocou as duas meninas no carro, fez as malas com as roupas e tudo mais que conseguiu carregar e explicou para Christina que estavam finalmente indo morar com a vovó. Era seu grito de liberdade. Estava cansada de apanhar do marido.

Ver suas filhas sendo tratada com hostilidade, sofrendo ataques de violência do próprio pai, a fez tomar essa coragem de fugir de Fort Dix e ir para Rochester. Shelly teve que criar coragem e dirigir cerca de 500 quilômetros na estrada até a casa da sua mãe. Naquele dia, entraram no carro e partiram para nunca mais voltar.

“Eu me lembro quando estávamos no carro indo embora. Rachel e Christina no banco de trás. Christina estava muito apreensiva e ficava repetindo: ‘Mamãe, e se ele vier atrás da gente? E se ele ver o nosso carro? E se ele nos achar?’, era de cortar o coração o desespero em que elas viviam”.

- Shelly

Shelly dirigiu por 5 horas de Fort Dix até Rochester, na Pensilvânia e mudou-se para a casa da sua mãe, Delcie. Dias depois ela foi até a justiça e pediu o divórcio do seu casamento. Finalmente estava livre de Fausto. A partir de então, Christina e Rachel nunca mais tiveram contato com seu pai, que passou a viver numa base militar no Colorado.

Mais tarde, Christina chegou a confessar à Rude Perez, o homem que produziu o seu álbum em espanhol ‘Mi Reflejo’, que ela teve traumas pelos comportamentos do seu pai e acabou bloqueando parte do seu conhecimento em espanhol. Logo após a separação, Shelly restringiu tudo que era espanhol e remetia à imagem de Fausto. Vida nova para Shelly e suas duas filhas.

Em 2002, Fausto chegou a publicar uma carta aberta se manifestando em relação as acusações da violência em casa. Disse:

“A minha relação com a mãe de Christina foi tensa e estava longe de ser perfeita. Mas o meu amor por Christina e pela sua irmã Rachel, nunca morrerá. Eu nunca abusei das meninas em momento algum do qual eu me lembre, e elas sabem disso. Shelly e eu nos desentendemos e discordamos de muitas coisas, e nós dois temos o gênio temperamental. É uma pena que lembramos das cosias de maneiras diferentes. Eu me desculpo por todas as vezes que levantei a mão para minha esposa, mas nunca foi nada brutal igual Ike e Tina Turner”.

– Fausto Aguilera, pai de Christina.

CAPÍTULO 3

a descoberta de um dom

A vida de Shelly e de suas duas filhas começou a mudar com o novo ambiente. Agora moravam com a avó Delcie Fidler, que sempre fazia questão de ter música na casa. A vovó introduziu a pequena Christina ao mundo do Old Blues, Soul, Gospel, Jazz e R&B. Passavam a tarde ouvindo cantores como Nina Simone, Etta James, Otis Redding, B.B. King e outras fortes influências. Shelly tinha a trilha sonora de ‘A Noviça Rebelde’ e Christina adorava. Ouvia todos os dias e gostava de imitar a Julie Andrews. Corria, abria os braços e girava, imaginando ser a personagem Maria.  Christina colocava a fita do filme para assistir e ficava vendo e revendo o dia inteiro. Shelly tinha que brigar para ela desligar a TV, enquanto sua avó ficava falando “Deixa a menina assistir e cantar“. 

Shelly sabia que sua filha amava cantar, mas foi a avó a primeira a perceber que a garotinha de seis anos possuía um verdadeiro dom.

“Quando descobri Julie Andrews e A Noviça Rebelde imediatamente me apaixonei. Eu tinha trilha sonora em uma pequena fita cassete. Colocava pra tocar no meu toca-fitas. E apenas, tipo, fechava as portas e abria as janelas e começava a cantar. Eu sei lá. É como se fosse uma libertação para mim, um crescimento, que joga fora toda energia ruim e tudo de mal que pode estar acontecendo, tensões e dores, era isso o que eu vivia. Cantar era uma libertação para mim. Me fazia feliz de verdade. Eu queria só ficar cantando as músicas do filme, o dia inteiro”.

– Christina Aguilera.

A avó chamou a atenção de Shelly para a cantoria de Christina. Shelly concentrava-se tanto em sobreviver ao casamento que não havia reparado no grande talento que sua filha tinha. Delcie começou a se importar e passou a apoiá-la. “Isso é algo maravilhoso, sabe? É algo que ela ama fazer. Ela será famosa um dia, ninguém canta assim nessa idade”, dizia Delcie à Shelly.

Jim Fidler, irmão de Shelly, conta que quando ele ia visitar a sua mãe, Delcie, ela gritava da cozinha “Abaixe o som Christina, queremos conversar!” e Christina respondia “O rádio não está ligado”… era ela cantando.

Shelly via as outras meninas da idade de Christina gostarem de princesas ou querendo ser enfermeiras, mas o coração de Christina estava preso na carreira de cantora. Ela sabia o que queria desde muito cedo. Sua primeira professora, Penny Householder, lembra-se do primeiro dia de aula. Conta que Christina era miudinha, tinha cabelos loiros compridos, batia nos seus joelhos e cantava musiquinhas.

“A primeira vez que vi Christina cantando foi um espanto. Ela era tão pequena! Perguntei se ela gostava de cantar e ela respondeu: Canto toda noite no meu quarto”.

– Penny Householder, professora.

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