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Liberation e a trajetória da nova Christina

PARTE 2

Escrito por @iLoveAguilera

Sobre o Autor: Advogado e criador de conteúdo sobre a Christina Aguilera entre 2009 e 2017. Fã desde que viu o clipe de ‘I Turn To You’ pela primeira vez, no já longínquo ano 2000.

LEIA A PARTE 1 CLICANDO AQUI.

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Continuando nossa pequena obra literária sobre a trajetória de Christina até o Liberation, vamos seguir do ingresso dela no The Voice até os dias atuais. Se você não leu a parte 1 ainda, é nela que fazemos um breve esboço da carreira, notadamente a partir do Back to Basics, até chegar na participação dela no programa

Já nesta Parte 2, para começar, a gente entra em um dos momentos mais divisores da carreira de Christina.

Lotus foi lançado dois anos depois do flop high profile do Bionic, um espaço de tempo que já seria curtíssimo (pra ela) em condições normais de temperatura e pressão, quem diria depois de tanta coisa negativa acontecendo pela primeira vez. Mesmo assim, e mesmo sendo um pouco evidente hoje que ela não teve o tempo que precisava para mergulhar completamente na criação de um álbum, nós lançamos nossas próprias expectativas sobre o que Lotus seria – e talvez daí decorra parte da nossa frustração.

Para não correr o risco de cometer alguma injustiça e deixar minha memória me enganar, eu passei a última semana revisitando a era Lotus depois de passar anos sem ouvir o álbum. Assisti a nada menos do que 30 entrevistas da época do lançamento, saindo de Your Body até o fim da divulgação, revi as performances, reli algumas notícias e ouvi o álbum múltiplas noites. Algumas impressões se confirmaram, outras me mostraram que às vezes, deixamos nossa percepção atual influenciar um pouco o que efetivamente aconteceu lá atrás.

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Lotustina na verdade deixou um grande legado que foi inventar o home office em 2012.

Uma coisa que definitivamente mudou na minha percepção é que, na minha cabeça recente, Christina havia promovido Lotus com desinteresse, o que reforçaria nossa impressão de que o álbum não contou muito com a participação dela. Em muitos aspectos, e depois dessa minha recente imersão na Era Lotus, não acho que isso seja totalmente verdade.

Na verdade, me pareceu claro que lançar o álbum naquele momento pode não ter sido exatamente ideia dela – mas isso não significa necessariamente que ela estava totalmente alheia a produção e ao lançamento do disco – até mesmo porque dá para identificar nele muito da Christina, principalmente nas letras.

Logo, a impressão que eu tive das entrevistas de lançamento é que, naquele momento, para a cabeça que Christina tinha naquele período, o trabalho criativo que ela dedicou a Lotus era suficientemente bom para justificar seu espaço na discografia, de modo que ela aparentava estar muito feliz com o resultado final, mesmo que muitos de nós o encaremos como o patinho feio da família. A minha interpretação, no fim, não é de que Christina lançou o álbum com desgosto. Ela lançou do jeito que a cabeça dela entendeu por suficiente – como se a gravadora tivesse montado todo um circo para deixá-lo comercial (os writting camps, o mandatório primeiro single com Max Martin) e Christina tivesse trabalhado onde pudesse para deixá-lo com sua cara e ficado feliz com essa abordagem. Para mim, é como se ela tivesse pedido ao writting camp músicas abordando temas que lhe são próximos, sem se preocupar em convidar criadores específicos para ajudá-la na tarefa.

Exemplificando o que eu quero dizer, é como se alguém do writting camp tivesse surgido com Army of Me, e ela elegesse a música porque estava dentro do tema de autoimposição que ela gosta de propagar. O que a gente sabe desse writting camp e da forma de criação dos álbuns anteriores nos permite concluir que a ordem em Lotus foi invertida: ao invés de ela definir uma visão, chamar um parceiro, e junto criarem músicas sobre os temas que ela queria abordar, ela comprou músicas criadas por qualquer pessoa convidada para o writting camp, dentre as opções que lhe foram apresentadas, que se alinhassem com sua forma de pensar. Consigo me explicar nessa divergência de abordagem?

O resultado é que, ouvindo as letras do Lotus, você de fato vê muito da Christina nelas. Muito mais do que a vejo nas letras do Bionic, inclusive (embora ela nunca tenha encarado de verdade o significado de faixas como Cease Fire ou Empty Words, fugindo de suas letras quando questionada sobre elas). O problema é que essa abordagem de criação pode ter criado uma dissociação da artista com a obra. Ela até poderia ver Lotus como um de seus filhos naquele momento (e eu acredito que ela via), mas a concepção foi muito diferente do que estávamos acostumados até ali, justamente porque não parece que ela estava com a cabeça para imergir, tão pouco tempo depois do desastre dos anos anteriores, no desgastante processo criativo que geralmente leva à criação de sua discografia. Simplesmente, não era a hora.

E tanto que não era, que ela ficou suficientemente satisfeita com o resultado desse trabalho à distância, ainda que os prazos e a direção geral do álbum tenham sido supostamente impostos pela gravadora na tentativa de resgatar o sucesso comercial perdido com Bionic.

Assim, é especialmente interessante vê-la descrevendo, numa entrevista concedida duas semanas antes do lançamento do Lotus, o meticuloso processo de criação de Stripped, Back to Basics e Bionic – com seus temas, moodboards, forma de abordagem dos colaboradores – e nunca mencionar o novo álbum dentre eles. Me pergunto até se ela chegou a perceber que seus exemplos de criação naquele momento não envolviam o seu projeto mais recente – o motivo pelo qual, inclusive, ela estava concedendo aquela entrevista.

Para mim, essa dissociação é aparente no resultado final. Minha opinião pessoal é de que o pouco que ela fez pelo álbum revela um fiapo da artista que ela é e uma execução surpreendentemente capenga.

Ela lançou um conceito para Lotus e até dá para ver uma potencial coesão no som que ele apresenta, pois o álbum tem uma sonoridade bem definida. Suas músicas todas têm uma pegada mais dance, mais comercial, que celebraria, curiosamente, a “liberdade” (palavras da própria) e “todas as partes de Christina enquanto mulher”. As letras seguem uma linha bem coerente com tudo o que a gente sabe da Christina e o que aconteceu com ela naquele período entre álbuns. E até mesmo a capa e as fotos do encarte acompanham esse conceito, e vê-la descrevendo com tanta precisão a história por trás da iluminação, das roupas, dos panos que cobrem o corpo dela nu, até faz a gente esquecer que tudo isso ficou muito mal representado no resultado final.

Primeiro, porque a coesão sonora do álbum foi totalmente ofuscada por essa produção inexplicável. SIM, eu vou reclamar dela. Eu juro que queria poder ouvi-lo sem me incomodar com os milhões de problemas que ficam martelando na minha cabeça toda vez que o ouço. Mas acho difícil não me deixar incomodar pelo volume do álbum, que é desequilibrado não só entre músicas, mas também dentro das próprias músicas – e particularmente acho esquisitíssimo que isso tenha acontecido. Além do mais, para mim, parece tudo muito berrado, muito alto, muito sem camadas – como se todas as partes da música estivessem na mesma frequência ou em frequências erradas, ao invés de os diversos elementos que as formam serem colocados cada um no seu quadrado. Eu honestamente não acredito que isso tenha sido proposital. Acho, na verdade, que Lotus sofreu com prazos e acabou tendo sua produção apressada – tanto é assim que eles chegaram a enviar para o review da Billboard uma versão demo de Lotus Intro construída sobre uma sample que nem tinha sido liberada ainda (e que eventualmente não foi). Achei um micão a Billboard depois ter que explicar porque eles falaram da música citando elementos que não existiam, embora ela tivesse sido mandada para eles poucas semanas antes do lançamento do álbum. E como se não bastasse, lembro que, pouquíssimo antes de o álbum ser lançado, Just a Fool chegou a ser tocada para alguns membros da indústria sem os vocais do Blake Shelton, porque ele ainda não tinha terminado de grava-los. Eu não sei se é comum um álbum estar tão incompleto tão pouco antes do lançamento, mas sei que com Lotus aconteceu.

Segundo, porque por mais interessante que fosse o conceito da Christina para o título e para a identidade visual do álbum, acho difícil olhar para eles e conseguir extrair tudo o que ela descreveu. Eu entendo que a ideia era brincar com a iluminação para que as imagens parecessem um momento de “renascimento”, de ver a luz de novo – mas pra mim, a única coisa que a iluminação fez foi tirar a cor das fotos que já nem eram grande coisa assim. Me arrisco até a dizer que as fotos ficaram péssimas, cheias de perucas e props totalmente sem nexo com o conceito. E a mulher que nos entregou encartes maravilhosos até Bionic, claramente pensados página a página, nos entregou um encarte como o de Lotus, ofuscado por sua sessão de fotos aleatória e de filtros exagerados. Evidentemente, um pouco disso é reflexo dos tempos em que os álbuns físicos deixaram de receber um orçamento como os de antigamente – mas isso não explica os problemas de edição das fotos e até da capa do álbum, que me parece ter de fato uma qualidade ruim. Já em termos de consistência de imagem, ela até começou com um critério bem definido: Lotus ia apostar nos visuais bem coloridos, bem misturados. Pode não ser o visual favorito de muita gente, mas assim como o som, ele pelo menos seguia um conceito visual, o que mostra que ela tentou manter uma identidade para o álbum embora não fosse nem a sombra da meticulosidade que ela tinha adotado para os álbuns anteriores. O negócio só descambou para a confusão mesmo quando os shows ao vivo do The Voice começaram e aquelas perucas de baixo orçamento inexplicavelmente entraram para o jogo – outro dos aspectos que confundem um pouco a Era Lotus, considerando que a gente estava falando de uma artista do escalão A com toda uma equipe de estilo em seu encalço. Aaaah mas aquelas peruquinhas chanel de franja preta faziam parte da visão dela também. Ok. Péssima visão, então.

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No começo até tinha uma consistência. Eu acho. Não que funcionasse bem.

Terceiro, porque naquele momento, Christina via Lotus como seu álbum de “uma cantora para a próxima geração de cantores”. Ela literalmente diz que Lotus foi criado para que pudesse servir, para os aspirantes a cantores, o mesmo papel que os álbuns de Whitney serviram para ela no passado. Pode ter sido esse o approach que ela deu na hora de gravar o álbum e por isso ele é tão alto o tempo inteiro, porque sua preocupação era em estender o seu vocal ao máximo. A questão é que a voz dela é uma voz de muitas texturas, nuances e se revela maravilhosa mesmo quando ela está fazendo adlibs discretos em seus tons mais confortáveis. Às vezes, só a forma como ela termina uma palavra me dá calafrios. Em Lotus, isso não acontece. Parece que não tem textura nenhuma além de: muitos berros altos, o tempo inteiro. Salvo raríssimas exceções, as músicas parecem que já começam com um soco ao invés de progredirem a isso, o que as deixam sem um clímax muito marcado ou insuportavelmente alto quando sua hora chega. E nem são bons gritos, na minha opinião. Christina sempre foi conhecida por sua perfeição extrema em estúdio, aquela mulher que grava e regrava trechos infinitas vezes mesmo quando todo mundo diz que o primeiro take já havia sido perfeito. Aquela que picota e mistura vários takes só para deixá-lo com o exato som que ela visualizou. Como explicar, então, o que aconteceu em uma parte bem específica de Sing For Me (“make my own, my very own…“), que definitivamente parece fruto de um erro que acabou passando despercebido? É difícil entender como ela se satisfez com os vocais desse álbum quando comparados com os vocais de seus outros álbuns, pois faltam a eles um nível de polidez e de precisão que até aquele momento a gente nunca tinha visto, como se ela tivesse só os gravado.

Quarto, porque toda a aposta comercial supostamente imposta pela gravadora definitivamente não valeu a pena. O potencial de Your Body estava todo lá mas ninguém fez nada com ele. Eu amo Your Body, o clipe, tudo. Eu percebo que é um single farofa que não tem nada de artístico, mas é muito divertido e apresenta bem o potencial que o álbum tinha nesse aspecto. O negócio é que Christina claramente não quer nada com essa música. Nas próprias entrevistas da época, ela já deixava seu recado no sentido de que Max Martin foi uma imposição da gravadora. Elogiava o clipe sempre que perguntavam sobre a música e efetivamente repetiu, inúmeras vezes, que “Max Martin foi ótimo porque entendeu que, se ela tinha que trabalhar com ele, que fosse soltando a voz”. Esse desinteresse mostrou desde aquela época. Já parou pra dimensionar que a única performance do single foi com um grampeador e uma calculadora? Esse quadro seria bonitinho se fosse entre duas ou três performances, mas a única? Amores, por que? Eles tentaram ainda capitalizar na maratona promocional do The Voice e usar o programa como plataforma, o que de novo relevou para mim que não era hora da Christina voltar ao palco: não me parece que ela se preparou o suficiente para nenhuma das apresentações e como resultado as poucas performances da era Lotus são as piores da carreira dela, analisando em conjunto. De novo, é como se ela tivesse subido ao palco pra cantar e é isso. E nem vou mencionar a tentativa de mandar Just a Fool para as rádios acelerando a música na expectativa de reduzi-la em 16 segundos, consequentemente mudando toda a frequência dos vocais e do instrumental. Quer jeito mais monumental de desconstruir um trabalho musical do que mudar o tempo da música desse jeito preguiçoso?  Para um álbum cujo principal apelo era ser comercial, e para uma artista que não parecia muito sob o controle dele para deixá-lo no nível de qualidade que se espera, o esforço da gravadora não colou. Pelo contrário, pareceu uma tentativa desesperada de capitalizar em cima da visibilidade do The Voice, chegando a ser particularmente ridículo como semana atrás de semana o Lotus era empurrado para a audiência do programa ao aleatório.

E por fim, a gente volta na crise de imagem. Dessa vez, não só estava vindo da época mais conturbada da carreira de Christina (e até então, muito recente), como também estava acumulando uma onda de negatividade que pra mim atingiu o ápice na segunda e terceira temporadas do The Voice.

De novo: não era o momento nem na cabeça dela, nem pro público.

E daí vem a nossa culpa em talvez lançar muita expectativa sobre Lotus. A gente comprou a natureza comercial dele quando ouviu Your Body e achou que com ele viria uma Christina sedenta para voltar ao topo das paradas e fazer da Era Lotus tudo o que parecia ter sido perdido com Bionic. A questão é que a própria Christina nunca prometeu nada disso. Até me surpreende hoje quando vejo muitos comentando que a “Lotus Tour” teria sido cancelada, pois a impressão que eu tinha desde aquela época (e que se confirmou agora revendo os vídeos) é que nem isso ela estava a fim de fazer. Sempre desconversava quando o assunto era turnê ou no máximo lançava alguns comentários vagos como “não tem nada agendado mas vamos ver”.

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/Vi que você anunciou o novo single do Lotus

E com isso tudo, a Era Lotus deixou um gostinho ruim para trás em muitos fãs. É um álbum que aparentemente foi fruto da pressão comercial da gravadora e do momento inapropriado para sua criadora.

Hoje, é certo que Lotus me frustra mais pela produção meia boca do que pelo aspecto comercial. Dá pra ouvir ali um álbum divertido, um álbum com potencial para ser coeso em som e imagem e que, com um pouco mais de dedicação, poderia estar ao rigor técnico do resto da discografia com a mesma tracklist que tem hoje. Lotus é, afinal de contas, um álbum que tem letras e ideias que são a cara da Christina, como Army of Me ou Make The World Move, que prega essa mensagem de aceitação, brinca com samples, com o Mickey Mouse Club e ainda traz collab com o ex-colega do The Voice. Um álbum com baladas que ela mesmo disse na época que eram “extremamente pessoais”, como Best of Me, Blank Page e Sing For Me – e outras músicas como Lotus Intro e Cease Fire, que brincam com elementos temáticos e abordam parte dos problemas que ela enfrentou nos anos que precederam o álbum. Mesmo as faixas de Max Martin têm um quê da Christina casual que marca presença em todos os seus álbuns, em especial Let There Be Love, que é sim muito divertida (e que do nada tem sido eternizada por Christina como um grande hino de união, coisa que claramente não é).

Tinha muito material ali, e muito potencial considerando que esse seria o grande álbum pós-casamento, pós-flop, pós-tudo. A questão é que foi tudo por água baixo por conta dessa completa falta de finesse e interesse. E é engraçado, porque há alguns dias ouvimos esse álbum juntos no Twitter e muita gente concluiu que estava deixando a memória trair, também percebendo que, numa nova análise, Lotus só é atrapalhado por conta de aspectos técnicos que não deveriam existir. Por esse lançamento precoce, de quando sua criadora não parecia estar com a cabeça necessária para assegurar que ele estaria à completa altura de sua discografia, embora naquele momento, ela pudesse achar que sim.

E, ao contrário de Bionic, cujo fracasso comercial foi divulgado às escancaras, Lotus simplesmente passou. Conquistou seus fãs, tem seus defensores, mas deixou a desejar à sua própria maneira. Nem mesmo Christina pareceu se importar muito. Veja que eu não quero, de forma alguma, desmerecer o significado que esse álbum tem para muita gente na sua própria jornada como fã – eu sei que muitos se identificam com as letras e eu insisto que elas são muito parte do que a Christina diz e faz. O que estou escrevendo aqui são minhas percepções sobre o álbum e estabelecendo os motivos pelos quais eu (pessoalmente) acho que ele se destaca negativamente num contexto geral.

E assim, seis anos se passaram. Eu não sei se a gente dimensiona que entre o álbum de estreia e o Lotus foram cerca de 12 anos de carreira, e entre o Lotus e o Liberation, metade desse tempo. Foi o período necessário para que Christina pudesse se confortar em seus projetos profissionais paralelos, que lhe permitiam, assim como o The Voice, manter seu estilo de vida caro e sua presença na indústria, podendo desfrutar de sua posição consolidada como grande cantora sem o stress de encarar um grande lançamento. Além disso, expandiu a família e cuidou deles com a prioridade que entendia necessária naquele momento. Quem pode culpá-la por isso, afinal? Desde seus MTV Diary mais antigos, ficava claro que a família era um grande porto-seguro para Christina – e depois de tanto tempo dando o sangue pelo trabalho e tantos anos levando porrada em troca, quem não se deixaria seduzir pela ideia de viver a vida com eles por um período? Foi o que foi necessário para que ela pudesse colocar sua cabeça no lugar.

Não foram anos fáceis para a gente que é fã, né? E a resposta veio no Liberation.

Rumo ao Liberation com altos e baixos
Rumo ao Liberation com altos e baixos

Em alguns aspectos, considero que Lotus e Liberation nem são tão diferentes assim. Ambos brincam com o mesmo conceito de liberdade, de retorno à forma. Nenhum dos dois foi criado sob um tema específico como passado ou futuro – sua base fundamental é mais simples, vaga; admitem qualquer tipo de produção, embora sejam coerentes em som e imagem dentro de suas respectivas propostas (Lotus com o som prioritariamente pop e uma imagem que aposta em cores; Liberation com seu som mais laid back e uma imagem mais simples – pelo menos no começo da divulgação). O encarte desse último também deixou a desejar quanto ao tratamento de outrora, embora nem de perto a execução das fotos beire o esquisito como algumas de Lotus (o que reforça que o encarte de Liberation é mais um fruto da realidade dos álbuns físicos de hoje).

Assim, de alguma maneira, penso que ambos os álbuns desempenham o mesmo papel na discografia. O que muda é a abordagem e a forma com que Christina encarou os dois trabalhos.

É a diferença entre estar pronta e não estar.

Antes de tudo, Liberation é, para mim, uma resposta a tudo o que deu de errado com o Lotus. Christina parecia farta com a pressão de estar no topo, muito embora Lotus pedisse por sucesso comercial e comprometimento. Liberation não parece ter vindo com essa proposta. Surgiu como uma espécie de acordo dessa nova etapa que, eu imagino, deve marcar todos os lançamentos futuros da Christina: ela faz a música que quer fazer, adequada ao mercado que ela detém hoje. Saem as pressões que podem acabar atrapalhando o projeto, mas saem também o orçamento e o público que o acompanharia. Um comprometimento comercial pode até vir em uma música ou outra – como sempre veio – mas não deve definir os rumos de todo o trabalho.

Muita gente ainda pode encarar isso como uma espécie de limbo. O fato de ela se manter como uma artista relevante para a indústria em muitos aspectos não deixa parte de nós querer abrir mão de acompanhar a Billboard, as vendas, os estádios lotados e as rotações em rádio. Afinal de contas, todos esses aspectos foram muito essenciais na carreira dela até aqui, e embora ela sempre tivesse dito no passado que não se importava com nada disso, até aquele momento nada disso faltava. Mas o fracasso comercial de Bionic (para aquela época) não nos deixou acostumar com essa ideia de desapego dos números, porque Lotus era uma evidente tentativa (da gravadora) de voltar ao topo das paradas.

Assim, Liberation verdadeiramente chega como o primeiro trabalho que faz a gente encarar que a busca pela sequência de sucessos comerciais pode ter ficado no passado.

Na semana em que escrevo isso, perguntei no Twitter qual seria a escolha ideal para o primeiro single de cada álbum na opinião de quem me segue por lá. Muita gente fez suas sugestões pensando no que seria melhor recebido comercialmente, singles que poderiam “hitar” ou os motivos pelo qual Accelerate teria sido uma escolha equivocada, porque era tão diferente e causou estranheza no público. Foi quando me peguei pensando: eu não tenho ideia de quantas cópias Liberation vendeu, ou qual foi a posição pico dele e de Accelerate na Billboard. Não sei nem se Fall In Line chegou a entrar na Hot 100. E veja que, até Lotus, eu tenho esses números na ponta da língua.

E posso confessar? Foi uma delícia apreciar o Liberation dessa maneira. O álbum foi lançado num período em que eu já havia fechado meu site e me afastado desse acompanhamento mais próximo, de modo que realmente me desconectei da pressão de seguir de perto a repercussão crítica e comercial. Não me vi desenvolvendo as frustrações naturais que vêm com a gente no sentido de que a “divulgação foi bagunçada” e tanta outra coisa que fica no caminho da gente curtir a música (e que por vezes a gente nem percebe como isso atrapalha). Eu acho que encarei Liberation da mesma forma que Christina: um convite para que nos apaixonemos pela música, não pela carreira. Essa é a forma, inclusive, como eu encaro muitos dos meus outros artistas favoritos, sendo Christina a única que sempre acompanhei de perto. Com os demais, eu sempre defini muito os meus gostos e ideias sem nem saber o que se passava fora dos álbuns e sempre acaba que alguns dos meus trabalhos favoritos são os menos populares. Apreciar a música assim é um convite que eu faço a todo mundo que, por um motivo ou outro, ainda está se deixando frustrar sempre que o próximo grande hit da Billboard não vem.

É claro que, sendo quem Christina é, Liberation veio com sua dose de evidência midiática. Ela foi nos programas padrão de lançamento, fez suas performances na TV, em uma premiação aqui e acolá e lançou o álbum com o hype costumeiro. A questão é que, enquanto Lotus pedia retorno popular, Liberation parece que nunca foi lançado com essa pretensão e entregou justamente o que se esperava dele.

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Não sou exatamente fã daquelas roupas 6 vezes maior que ela, mas a bicha ficou muito chique de Liberation pra cá, né?

O maior indicador disso, para mim, foi a decisão de lançar Accelerate como lead single. A música, que estava sendo propagada como o retorno de Christina pela mídia pré-lançamento, causou um sonoro “wtf” quando foi lançada e claramente não tinha pretensão nenhuma de se tornar hit. E quem precisa de hit quando a dona do álbum falava dela com tanto orgulho em suas entrevistas? Para mim, Accelerate foi a escolha perfeita, porque era uma faixa com uma estrutura criativa, diferente, bem produzida e já dava a dica de que Liberation não colocaria a recepção comercial em primeiro lugar. Na época, as pessoas podem nem ter entendido a decisão de lançá-la primeiro ou sequer compreendido sua estrutura irregular, mas eu acho que ela é uma representação ideal desse conceito de que os lançamentos futuros de Christina priorizarão o que ela quer que represente o trabalho, não a potencial repercussão comercial.

Mesmo Fall In Line, que poderia ter um apelo mais comercial por conta de Demi Lovato, priorizou a integridade do trabalho sobre o desempenho nas paradas. Essa foi a faixa escolhida por Christina para divulgar na TV e penso que isso tenha sido mais por conta da mensagem que trazia (muito contemporânea ao movimento “Me Too” da época), do que por conta de eventual vontade de ir para o topo das paradas – mesmo porque a música não tem uma estrutura convencional para a rádio e é excessivamente longa para o formato (e até onde sei, ao contrário do que aconteceu com Just a Fool e You Lost Me, Fall In Live teve sua integridade sonora preservada nas versões enviadas para rotação). Inclusive, salvo engano, Fall In Line sequer foi oficialmente enviada para as rádios Top 40 (as populares), mas sim para as rádios mais nichadas no público adulto/contemporâneo. Christina e Demi Lovato poderiam, juntas, apostar em algo mais comercial, mas até a escolha de Demi por Christina parece ter priorizado o tipo de pessoa que ela queria para contar essa história – tanto que o background de Lovato era mais mencionado por Christina em entrevistas do que sua capacidade de manter o nível dela nos vocais.

E, falando em parcerias, à exceção de Lovato, Liberation experimenta com muitos artistas nada convencionais que parecem ter sido escolhidos a dedo por Christina para entrar no álbum. E ainda tem o bônus Lewis Hamilton, ou “XNDA”, a parceria secreta de Pipe que funciona como um easter egg para a gente, que oficialmente, só “descobriu” quem era agora que Lewis resolveu sair do armário musical no instagram. Acho que isso revela também uma vontade de Christina brincar com os ouvintes e eu adoraria saber como essa parceria surgiu. Aliás, quick fact aleatório: NDA, para quem não sabe, são as siglas que no meio empresarial significam “Termo de Sigilo e Confidencialidade”, ou, “Non Disclosure Agreement”. Geralmente a gente prepara NDAs para preceder negócios que contém ou darão acesso a informações que não podem ir a público. Imagino que indicar o nome de XNDA como feat da faixa brinque com essa ideia, sendo X uma referência a Xtina. Posso estar viajando na maionese? Sim, mas enfim. Seguindo.

Tecnicamente, considero Liberation quase impecável. Onde Lotus erra na produção, Liberation se sai com maestria. Goste ou não goste, o álbum é redondinho. Só esse cuidado em criar um conjunto que é tão coeso (pra mim, o álbum que tem a maior coesão sonora de toda a carreira dela) já revela a preocupação de Christina em manter a qualidade dessa nova adição à sua discografia. Os vocais dela receberam o mesmo tratamento: ela foi na direção completamente oposta de Lotus e cada melisma, cada letrinha que ela canta, parece ter sido cuidadosamente trabalhada e colocada ali (algumas exceções se aplicam, porém são raras).

Pra mim, Liberation mostra que ser um álbum de “cantora para cantores” não precisa ser estridente, porque seu timbre e sua precisão falam por si só – tanto em músicas como Pipe, que não se exalta hora nenhuma mas que têm vocais deliciosos – quanto em músicas como Unless It’s With You, a grande balada vocal do álbum que sabe muito bem quando segurar os gritos antes que se tornem desagradáveis. Assim como Bionic, acho que Liberation explora muito bem todas as texturas da voz dela quase que de forma orgânica. A gente simplesmente sabe que está ouvindo uma grande cantora, mesmo quando o que está tocando são os versos de Like I Do.

E obviamente o timing ajudou também na hora de prepará-la para as performances. Desde Liberation – e seguindo até hoje, com Ave Maria no memorial de Kobe Bryant ou Loyal Brave True no Kimmel – Christina vem constantemente dando uma sequência incrivelmente forte de performances, revelando o mesmo rigor que ela demonstrou ao gravar o álbum, sem a necessidade de berrar seu caminho pelas canções. Ainda assim, até quando ela aposta nos vocais mais fortes, o que é o caso de Fall In Line, o resultado tem sido impressionante. Todas as performances na televisão para promover o Liberation mostravam uma artista bem mais centrada e focada no que estava fazendo no palco e esse resultado era evidente quando comparado com aquelas performances do Lotus no The Voice. A Christina de Liberation parecia determinada em impressionar com sua presença de palco, ao passo que a de Lotus parecia simplesmente acomodada em subir ao palco, cantar e sair.

Aliás, essa determinação e timing positivos se revelaram também com a vontade de fazer não apenas uma turnê, mas duas, três e até uma quarta, que foi infelizmente cancelada pela pandemia da COVID-19. Não são turnês perfeitas, longe disso, têm muitos problemas aos meus olhos especialmente porque Christina não larga o lado pop de querer se expressar visualmente no palco e isso pode acabar um pouco comprometido com orçamentos menores – mas ao menos, resgatam essa artista que ficou adormecida por tanto tempo e que parecia genuinamente feliz de voltar ao palco e estabelecer aquela conexão com os fãs, depois de tanto tempo adormecida e perdida.

Comentaram comigo outro dia que ainda lhe faltava brilho nos olhos durante a turnê – mas eu não concordo. Eu de fato vi uma Christina animada e emocionada em voltar a fazer seus shows, uma emoção que se revelou em tantos discursos que ela fez nesses dois anos de concertos ininterruptos. Não sei se adianta a gente comparar a energia dela no palco agora com a energia que ela tinha em 2007. Talvez isso volte com o tempo, talvez não. E a bem da verdade, no fim das contas, é que a produção e a energia que vemos no Youtube não significa nada para quem estava lá, vendo a coisa acontecer de perto. Pode perguntar para qualquer um que foi.

Isso só pode ser um sinal de que boas coisas virão pela frente e de que ela finalmente encontrou o equilíbrio necessário para se manter viva como artista. Ah, e junto, o reconhecimento, já que Liberation abocanhou lá suas indicações ao Grammy, algo que não acontecia com um álbum de Christina desde Back to Basics.

É claro que nem tudo são flores. Uma desconexão que eu percebo que pode ter vindo com o álbum é nas letras, já que ele parece ser metade/metade em termos de letras pessoais e letras genéricas. Logo, no aspecto “Letras com a cara de Christina”, penso que Lotus ainda se sai melhor. Claro, ele ainda tem suas doses de histórias pessoais, com o absoluto destaque para Maria, uma música que por si só já mostra, para mim, que Christina estava levando a sério a história de liberação que queria contar nesse disco.

Quanto a isso, também é revelador como ela tenha optado por começar a maratona promocional expondo “sua cara limpa” em sessões de fotos e entrevistas, mostrando que essa história de Liberation contar a história de uma mulher confortável com a própria pele não era só ladainha – já que até mesmo no auge dos seus 21 anos, com o lançamento de Stripped, ela escondia seu rosto sem maquiagem a qualquer custo das câmeras do MTV Diary. É lógico que não demorou nada para Liberation abandonar esse conceito e resgatar a maquiagem pesada de sempre no meio da maratona promocional, mas acho que isso tem mais a ver com o fato de que Christina ama se expressar dessa forma do que efetivamente querer esconder qualquer coisa.

No fim de tudo, meu intuito com esse texto não é desmerecer quem gosta de Lotus ou não gosta de Liberation – estou só fazendo um exercício para tentar entender onde estamos e para onde vamos. Posso, claro, estar redondamente enganado, afinal de contas, sou um fã que sabe só o que todo mundo também sabe, mas que por acaso consegui esse espacinho aqui no CABR para dividir um pouco da minha opinião pessoal. Como eu disse, Bionic nem é um dos meus álbuns favoritos, mesmo que eu enxergue nele todas as qualidades que fazem de Christina quem ela é.

E onde estamos agora, para mim, é num meio termo compromissado que é o ideal.

É claro que eu entendo a frustração de quem vê um potencial comercial que não foi atingido por conta de uma decisão X ou Y que para nós – leigos – é equivocada, ou de quem queria ver ela enchendo arenas pelos Estados Unidos como se fosse 2003. Mas é realista pensar isso agora? E qual a vantagem disso para a gente?

Porque pessoalmente, eu acho que estamos bem onde estamos e não me incomodaria se ela ficasse aqui – evoluindo em seu trabalho, mas não necessariamente em popularidade.

Eu só vejo vantagens em reduzir um pouco a pressão e as expectativas e deixar Christina trabalhar do jeito dela, desde que mantenha a qualidade de seu som, sua conexão com as letras e as turnês vindo. Se encher estádios exige uma agenda promocional prévia que poderia afastá-la de sua família e do espaço-seguro que ela criou para si, por que a gente almejaria isso? Isso não nos colocaria de novo no Ciclo Bionic-Lotus e fatalmente não a afastaria dos holofotes novamente? Aliás, por que almejar uma grande turnê de estádios, se como fã, nossa experiência pode ser muito mais pessoal com uma turnê como a Liberation Tour – mais íntima e mais próxima – tanto a gente dela quanto ela da gente? Acho que até isso a permitiu a encarar sua carreira com mais humildade, agora que sentiu na pele o quão frágil ficar no topo havia se revelado.

Por isso, acho que preservar essa proximidade é até saudável para ela, que agora, subia ao palco toda noite sabendo que quem estava ali era o público fiel dela, que estava ali para assista-la e apoiá-la, e não porque ela era a queridinha da vez. Ela já passou por essa fase. E nem é demais lembrar que ela sempre gostou e se beneficiou de shows menores e mais intimistas – Pussycat Dolls, os showcases do Back to Basics em pequenas casas noturnas, o Storytellers. Ela sempre demonstrou afinidade por essa vibe.

Sim, maior sucesso comercial resulta em maior orçamento, mas para mim, Liberation é o primeiro passo para uma nova fase que só tende a melhorar. Se ela mantém esse equilíbrio, penso que a tendência é se aproximar cada vez mais da criação de sua música, de deixar se experimentar mais, de resgatar ainda mais o seu lado artista e voltar a nos presentear, quem sabe, com um álbum tão poderoso que se torne quase unanimidade entre os fãs como é o Stripped. Até mesmo sem essa pressão, pode vir um absoluto sucesso comercial de novo, por que não? Inclusive, Christina é uma mulher de tantas facetas, que esse texto pode se tornar obsoleto amanhã, quando ela repentinamente lançar um álbum moldado ao que é comerciável. Vai se saber se isso não pode acontecer. Quem sabe daqui a um ano ela também não está totalmente over o Liberation e nem inclui mais nada dele em turnê? Tudo é possível.

Mas a bem da verdade é que Christina já é uma mulher com mais de 20 anos de carreira e prestes a fazer 40 anos de idade. A indústria nem sempre recompensa esse perfil, ainda mais um perfil como o de Christina, que nunca se mostrou disposta a sucumbir demais ao que esse jogo exige.

A questão é que sua demanda ainda existe – e os shows da X Tour mostraram que ela segue firme e forte no exterior também. Se esse mercado se manteve até hoje, eu só consigo ver Liberation como o primeiro passo para uma nova (e confortável) etapa em que Christina e seu público encontraram um equilíbrio, e que isso só pode resultar em boa música e bons momentos – mesmo que, dentre eles, não venha um #1.

– ilove

Christina Aguilera Brasil

ouça enquanto lê:

Sugerimos a playlist abaixo para uma imersão na leitura. Dê o play e entre nesse clima:  

Saiba mais sobre o autor:

autor ilove

Advogado e criador de conteúdo sobre a Christina Aguilera entre 2009 e 2017. Fã desde que viu o clipe de 'I Turn To You' pela primeira vez, no já longínquo ano 2000.

iloveaguilera

Nós do CABR convidamos o ilove para participar dessa coluna especial sobre Liberation e a trajetória da nova Christina, onde ele apresenta seu ponto de vista nesse artigo de opinião.

Artigo: Parte 02 de 02.

Leia a parte 1 da entrevista CLICANDO AQUI.

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  • P*t* que pariu! Que texto f*da!
    Pra quem não acompanha a fundo a carreira da Aguilera é muito fácil falar que ela está sumida ou que o último cd dela não é bom, mas eu como, fã vejo claramente o que levou Christina a ser a artista que é hoje. Tive a oportunidade de ir na Liberation Tour e ali já tinha percebido que ela irá seguir essa vibe daqui pra frente. Fico muito feliz de ler o mesmo raciocínio aqui. E é óbvio que quero um reconhecimento da artista que me faz sentir tanta coisa que eu não sei nem explicar, mas ao mesmo tempo eu não ligo se não acontecer. O que importa que quando o Liberation foi lançado eu voltei a viajar nessa voz que tanto amo há anos.

    Só queria Aguilera que a gestação de um álbum para o outro não demorasse tanto, né minha filha? E Deus me livre dela lançar singles avulsos sem um trabalho anexado nele. Acredito que isso ela não irá fazer. Ela é muito Old School para isso!

    Parabéns pelo texto.

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