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Liberation e a trajetória da nova Christina

Parte 1

Escrito por @iLoveAguilera

Sobre o Autor: Advogado e criador de conteúdo sobre a Christina Aguilera entre 2009 e 2017. Fã desde que viu o clipe de ‘I Turn To You’ pela primeira vez, no já longínquo ano 2000.

Autor do site iloveaguilera.wordpress.com e também do (já não mais entre nós) myChristina.

Sexta-feira, fim de tarde, cafezinho do lado e um milhão de pensamentos aleatórios pra organizar depois de tanto tempo sumido deste ambiente online. Para quem não sabe quem está escrevendo isso, alguns carinhosamente me chamam de “ilove”, apelido que me foi dado em razão de um site que eu mantinha sobre a Christina até 2017. Fiz meu retorno dramático agora no Twitter, durante a pandemia, e os garotos aqui do CABR (leia-se K-BR, chocante, eu sei) gentilmente me cederam esse espaço para trocarmos uma ideia sobre alguns assuntos.

Este texto surgiu, na verdade, a partir de algumas conversas que a gente manteve lá mesmo no Twitter sobre os desdobramentos da Era Liberation na carreira da Christina, e o que nós interpretamos que ela significa no contexto de toda a sua trajetória profissional. Como eu nunca tive a oportunidade de compartilhar como eu, pessoalmente, encarei a Era Liberation – algo que fiz tanto para o Lotus quanto para o Bionic – achamos que seria um tema legal para abordarmos aqui. Ajuda muito o fato de o álbum ter recém completado dois anos, então nossa visão sobre essa tema fica um pouco mais clara agora que o espaço dele nessa trajetória já está mais bem definido.

É lógico que, sendo uma coluna, a ideia é que eu possa expressar a minha opinião pessoal e convidar todo mundo – aqui ou nas redes sociais do CABR – a expressarem a própria opinião também. Não faz sentido publicar isso se não tiver debate, então sintam-se à vontade para contribuir, ok? Eu particularmente tenho muito interesse em saber a percepção de todos sobre o álbum já que fiquei meio desligado da repercussão dele nesse período, algo que, pra mim, foi muito diferente.

Obviamente, quem me conhece sabe que talvez eu tenha me empolgado um pouquinho além da conta na hora de escrever, então vamos precisar repartir isso aqui em duas partes enormes, ao invés de condensar tudo em apenas uma parte monstruosamente enorme. É, que, para organizar melhor as ideias sobre como eu encaixo o Liberation na carreira da Christina, achei melhor fazer, antes, um breve retrospecto de como eu encaro a carreira dela até aqui.

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Rewind ⏪

Os primeiros anos, a gente sabe bem como foram: uma ascendente constante. Vindo do sucesso arrebatador do primeiro disco, foi no Stripped que Christina descobriu que era possível conciliar o sucesso comercial com sua visão de artista. No Back to Basics, ela subiu mais um degrau ao obter, também, a aclamação crítica – dessa feita, somando ainda o sucesso comercial de um álbum que, em muitos aspectos, não se encaixava com nada que estava sendo lançado pela indústria mainstream (nunca vou esquecer o olhar de confusão de umas meninas da plateia do Good Morning America vendo ela cantar Candyman). Não por menos, Back to Basics foi muito divisor entre os fãs nos anos de seu lançamento (algo que hoje nem percebemos mais, mas isso é assunto pra outro dia!).

O que importa é que deu certo – e só deu certo porque ela foi capaz de, mais uma vez, brigar e convencer um monte de marmanjo com décadas de experiência, de que sua visão para o álbum deveria prevalecer.  O próprio então presidente da gravadora, Clive Davis, chegou a mencionar em seu livro de memórias como foram os bastidores de uma das maiores discussões envolvendo o Back to Basics, que, tenho certeza, muitos lembram: o fato de Christina exigir que ele fosse um álbum duplo.

Notadamente, essa história foi importante o suficiente para marcar a memória de um dos mais bem sucedidos (e inflexíveis) nomes da indústria musical.

Para quem não está familiarizado com ela, essa foi uma “briga” comprada todinha por Christina, que aos 25 anos de idade, lutou contra os executivos da gravadora para fazer de Back to Basics um álbum duplo, muito embora esse tipo de trabalho fosse mais caro e mais difícil de ser comercializado. Naquele momento, a única coisa que importava para ela era que a forma que o álbum estava tomando não faria sentido se todas as músicas fossem condensadas em um disco só, muito embora, comercialmente, isso pudesse ser um tiro no pé.

Ao invés de narrar, procurei (e depois de muito esforço, achei!) a parte da auto-biografia de Clive que relembra esse episódio. Vou deixar ele aqui pra quem quiser ouvir as palavras conforme narradas pelo próprio:

Em seguida, Christina quis lançar um álbum duplo, o que sempre é uma decisão difícil para uma gravadora. Mesmo para uma artista com boas vendas no currículo como Christina, era esperar muito que os fãs pagassem o preço que um álbum duplo custava, especialmente numa época em que as vendas de álbuns no mundo inteiro estavam encolhendo. Contudo, embora eu costumasse brigar contra uma decisão dessa com veemência, eu senti que Christina tinha conquistado o direito a um projeto como esse. Ela tinha um histórico de muitas vendas, dava o sangue pelo trabalho e certamente tinha o controle de suas próprias opiniões. Qual seria o objetivo de tentar impedi-la? Como sempre, eu deixei muito claro para ela todos os obstáculos comerciais que um álbum duplo enfrentaria, mas ela foi firme nessa decisão e eu finalmente optei por ceder ao que ela entendia como melhor para o projeto. O empresário dela é o melhor de toda a indústria, Irving Azoff, e juntos eles coordenaram todas as decisões mais relevantes da carreira dela. Eu sempre entendi que Back to Basics era um projeto muito pessoal para Christina. Um disco foi uma colaboração com DJ Premier, o outro, com Linda Perry, e Christina efetivamente co-escreveu todas as 22 músicas daquele álbum. Era um álbum divertido e com um grande salto criativo, mas nenhuma de suas músicas tinha as características de um single definitivo que serviria para alavancar as vendas – e por isso, Back to Basics estacionou, embora tenha estreado no topo das paradas e eventualmente se tornado um álbum de platina. Acho que a conclusão da Rolling Stone foi a que melhor representou as críticas: se fosse um único disco, teria sido uma obra de arte. Obviamente, Christina é uma artista com muito poder de presença e apelo internacional, então as vendas do álbum foram contabilizadas em cerca de 5 milhões de cópias.

Clive Davis
Com Clive Davis em 2007, celebrando as indicações do Back to Basics ao Grammy

Clive ainda destaca que entrou na RCA quando o clima na gravadora era de tensão, já que Christina, a líder de vendas da empresa, havia acabado de lançar Dirrty, e o single mal conseguira chegar no Top 50 da Billboard. É curioso saber o que esse single representa hoje na carreira não apenas de Christina, mas de tantas outras artistas também, e como o Stripped vendeu que nem água a despeito da apreensão dos executivos, né?

Por isso, acho que, depois do Back to Basics, Christina já tinha muito claro na mente dela que a briga para fazer sua visão prevalecer estava sendo recompensada com o sucesso de tudo o que lançava, ainda que os executivos nem sempre concordassem com suas ideias. O Stripped já não era mais seu único caso de liderança bem sucedida – e nunca é demais lembrar que a versão de Come On Over que foi para as rádios e conquistou seu terceiro #1 da Billboard foi imposição dela, já que a ideia da gravadora era lançar a versão original do CD.

E agora, cá estava a mulher se sentindo confiante o suficiente para debater com o presidente da gravadora dela, sabe? Ela estava pronta para mais uma vez assumir a responsabilidade pelo eventual fracasso de sua visão, algo que ela já havia feito precocemente logo no seu segundo álbum.

E, embora Clive tenha colocado tudo de forma muito pacífica em suas memórias, eu me lembro que boatos da época davam conta de que não foi nada fácil (e quem acompanhou, deve lembrar que Back to Basics parecia ser um álbum duplo numa semana e simples na outra, de tanto que esse anúncio mudou). Só que ela bancou essa ideia, apesar de ter que enfrentar, de cara, dois grandes problemas: o custo de produção do álbum (e consequentemente, de venda nas prateleiras) e a própria imagem e sonoridade, que não encontrava respaldo nas rádios ou na TV. Christina estava lá, no auge de seus 25 anos de idade, se vestindo como uma diva de antigamente, na completa contramão do trabalho anterior. Se vender esse visual e esse som já eram complicados, como fazer isso com o agravante de que o preço para o ouvinte seria maior do que o normal?

E assim, apesar de romper com algumas das regras que a gravadora preferiria ter imposto sobre o Stripped e sobre o Back to Basics, esse equilíbrio foi bem sucedido e durou basicamente uma década – consequentemente, deixando Christina mais cara a cada ano que passava.

É que, sua paixão – e consequentemente, o custo atrelado a ela – era refletida até mesmo nos encartes de seus álbuns, que Christina fazia questão de aprovar pessoalmente, já que considerava essencial à experiência conciliar a imagem ao som de seu trabalho, mesmo com a popularização de plataformas como o iTunes. Esse é o tipo de artista que ela sempre foi, colocando visual e som para andarem de mãos dadas sempre. E com que maestria que ela fazia isso, não é? O encarte do meu Back to Basics está completando 14 anos e ainda tem aquele cheirinho maravilhoso de algo que não sei identificar (plástico, rs?).

Back To basics
A identidade visual de Back to Basics em fotos, no tapete vermelho e no palco

Ao fim de tudo, além das 5 milhões de cópias do álbum, a turnê Back to Basics acabou se tornando a mais rentável turnê feminina do ano de 2007 e isso tudo era incrível para uma artista que surgiu na onda do pop adolescente, e que em tese teria um rápido sucesso de 15 minutos no fim da década de 1990. Mais do que seu terceiro grande álbum de sucesso consecutivo, Back to Basics deu seguimento ao sucesso de Christina enquanto visionária de sua carreira.

DAÍ VEIO BIONIC...

Eu acho que todo o acúmulo de sucesso e acertos que Christina viveu até aquele momento possa ter chegado em níveis insustentáveis quando foi a hora de lançar o Bionic. Até aqui, ela deveria estar confiante de que sabia, mais do que qualquer um, sobre como conduzir sua discografia – e talvez, se não fosse essa grande rasteira que o universo deu nela nesse momento, eu fico imaginando aonde estaria a pessoa Christina Aguilera hoje.

No meu ponto de vista, foi essa rasteira – que brevemente interrompeu essa ascendente constante – foi o que deu início ao processo de reposicionamento pessoal e profissional que, creio eu, nos levou ao ponto dessa matéria: Liberation.

Acho que a maioria de nós vai lembrar da história de Bionic: começou com as notícias de que Christina estava firmando parcerias completamente inusitadas, chamando para seu álbum artistas totalmente fora do mainstream e cujos nomes não significavam nada para grande parte do seu público. Pouco a pouco, essas parcerias foram ganhando evidência. Até mesmo um ano antes do álbum ser lançado, Christina já estava repetindo na mídia o quão experimental ele seria. Seu empresário já até anunciava na TV que viria um álbum inovador para a indústria.

Só que aconteceu que o disco, que estava pronto para ser lançado no fim de 2009, foi adiado para meados de 2010, supostamente por conta das gravações do filme Burlesque – um adiamento que sempre me pareceu muito de última hora, considerando o qual avançado o álbum estava em seus estágios e o quanto de antecedência eles já deveriam ter a agenda de gravações do filme.

Nesse meio tempo, vieram os primeiros indícios de que o promissor lançamento não estava exatamente dentro dos trilhos. É claro que tudo o que vou falar aqui é meramente especulativo, porque a gente nunca viu efetivamente nenhum documento que dê suporte as nossas desconfianças (cadê vocês hackers) – mas o Bionic sempre me passou a impressão de ser um projeto muito caro para a Sony Music. Como eu disse lá em cima, isso faz parte daquela linha ascendente e da tendência de Christina de sempre dar um passo acima do anterior. É natural que isso aconteça, a gente se acostuma a novos padrões na medida em que vamos subindo os degraus. Todos nós.

E logo ficou evidente que, além de caro, Bionic estava ficando muito arriscado também – afinal, além das parcerias serem totalmente desconhecidas pelo público alvo, Christina estava vindo de uma crise de imagem nada favorável da época do lançamento do Keeps Gettin’ Better e todas as comparações com Lady Gaga. Ao invés de elas diminuírem com o tempo, as comparações pioravam na medida em que o lançamento de Bionic chegava mais perto. E assim, do nada, começaram a insistir nessa história de que o tal álbum futurista seria uma cópia do trabalho de Gaga, embora: (a) ninguém tivesse ouvido nada dele ainda; e (b) a descrição de Christina para o álbum não parecia em nada com o material de Lady Gaga.

Talvez seja por isso que a RCA aparentemente tentou intervir nessa coisa de indie experimental e despachou o Polow Da Don para criar mais algumas faixas de último minuto, surpreendendo todo mundo que esperava do Bionic um projeto altamente experimental. Não é incomum a gravadora pedir alteração nos álbuns que não têm pelo menos um sucesso claro para as paradas, mas eles já haviam passado por isso antes com Christina no Back to Basics e deu certo. Ademais, na minha percepção, as próprias colaborações com o Claude Kelly e Tricky Stewart em Desnudate, Prima Donna e Glam já tiravam o Bionic um pouco dessa categoria underground. Possivelmenteacrescentar a elas as músicas do Polow – incluindo a que veio a ser o primeiro single – pode ter atrapalhado um pouco mais da visão original da Christina. Acho que ela já considerava as músicas de Tricky e Claude Kelly como sua contribuição mainstream ao álbum para satisfazer o aspecto comercial do projeto.

O fato é que ela não estava vindo de uma era como Stripped ou Back to Basics – ela estava vindo de uma coletânea de sucessos que teve sua imagem marcada pelas comparações com a então queridinha revolucionária do mundo mainstream; a vítima que teria sido esnobada pela veterana invejosa. E por conta disso, os desafios comerciais de Bionic não viriam sozinhos, como vieram em Back to Basics. Christina o veria somado a um ambiente particularmente hostil contra sua imagem, e uma gravadora potencialmente preocupada com um investimento financeiro que – suspeitamos – devia estar alto demais para o cenário que estava formando.

Apesar disso, originalmente Bionic seria lançado junto com uma turnê, um álbum de remixes que traria as suas faixas retratabalhadas por DJs, uma linha de semijoias e outra de cosméticos chamada “Let’s Get Glam”. A estreia do clipe de Not Myself Tonight foi anunciada e promovida nos telões da Times Square (quem faz isso, gente?). A arte do álbum recebeu uma atenção fora do comum, imortalizada não apenas na capa (incrível) criada pelo D*Face junto com a Christina, como também em todas as páginas do encarte, que pra mim, superou até mesmo o cuidado recebido pelo Back to Basics. E nem vamos comentar da capa holográfica das versões Deluxe do disco, né? O cuidado meticuloso com o visual e com a consistência da imagem dessa Era me levam à impressão de que a turnê teria um tratamento todo especial também. Estava tudo bem redondinho como sempre esteve. Mais uma Era perfeita em termos de consistência entre som e imagem, com a cara de Christina e do conceito do trabalho.

Bionictina
Bionictina – Chique, consistente e agressiva enquanto durou

Nisso, o modo artista de Christina parecia vivo em Bionic, mesmo que sua visão inicial pudesse estar um pouco comprometida. Até que ponto foi esse comprometimento? Não sabemos muito. Embora Christina ainda use as parcerias mais inusitadas para descrever o álbum, são as músicas do Polow que ela escolhe para representar o disco em suas setlists mais atuais. E definitivamente, ela nunca pareceu chateada de ter colocado músicas como Woohoo na tracklist, uma música que é a cara dela embora não fosse necessariamente a cara do conceito original de Bionic.

É nesse momento que eu fico tentando imaginar o que passava pela cabeça de Christina quando ela viu o álbum pelo qual trabalhou tanto tempo, e montou com tanto cuidado, começar a desmoronar por motivos que, honestamente, não eram os motivos certos. Bionic foi amaldiçoado pela imagem arranhada de sua criadora antes de ser lançado, e penso que ela já mergulhou na maratona promocional sabendo que aquilo era uma batalha perdida.

Não é demais lembrar que a turnê foi cancelada antes mesmo do álbum ser lançado. Os ingressos ficaram à venda por apenas três dias quando voltaram atrás nessa ideia de fazer shows. Eu não sei como ela encarou isso, mas pra mim, começar a divulgar um trabalho já com essa notícia me daria um sentimento de derrota. E para piorar, a percepção do público estava péssima antes mesmo do primeiro single ser lançado. A imprensa estava sendo especialmente cruel nos comentários que fazia, e era evidente antes mesmo de ele ser lançado, que ninguém daria ao Bionic a chance que Christina esperava.

Eu particularmente me lembro muito desse período porque foi uma época em que nosso site esteve muito ativo, e era impressionante como uma entrevista que ela dava para uma rádio em um dia se tornava uma manchete completamente falsa no dia seguinte. E com isso, a impressão que eu tive é que ela estava cansada de dar murro em ponta de faca concedendo entrevistas que não levariam a nada e ainda seriam usadas contra a pessoa dela logo em seguida.

Nesse soma, ainda tem o aspecto pessoal. Embora ela e Jordan tenham anunciado a separação apenas em outubro, eu me lembro que no set de Not Myself Tonight, em fevereiro ou março anterior, ela já havia sido entrevistada sobre os boatos de que estava se separando (e desconversou, dizendo que nunca teve o costume de usar a aliança). Esses boatos nasceram na mesma época em que um desses sites de Blind Items comentou que “uma cantora estava em processo de separação, mas manteria isso em pausa porque estava prestes a lançar um álbum e não queria que isso atrapalhasse na divulgação”. Se era verdade, não sabemos – mas não me espantaria se ela já tivesse entrado na Era Bionic tendo que lidar também com uma crise pessoal que se revelou verdadeira poucos meses depois do lançamento.

E por fim, não dá pra ignorar que nenhuma tentativa de consertar o estrago deu muito certo (e a equipe de Relações Públicas da Christina realmente não existia, né?). Fora de todo esse contexto de negatividade, Not Myself Tonight já confundiu a cabeça de todo mundo que passou um ano ouvindo a Christina descrever um disco montado com Ladytron, Goldfrapp e Le Tigre. Algumas dessas parcerias não sobreviveram ao corte e as outras que sobreviveram, foram pra a edição Deluxe. Mesmo assim, eram elas que Christina usava para descrever o álbum.

O resultado é que Bionic foi montado em cima de uma expectativa que acabou afastando parte do público alvo dela, e de uma realidade que não atraiu o público dos colaboradores – ou seja, simultaneamente, afastou dois mercados. Logo em seguida, pareceu óbvio que eles apressaram o lançamento de You Lost Me para tentar atrair o público que é fã da voz e das baladas de Christina. Woohoo, que aparentemente já estava com o clipe preparado para gravar, foi cancelada antes de ser confirmada, e You Lost Me foi jogada na cara de todo mundo no alto do verão americano, quando a última coisa que tocava nas rádios eram grandes baladas melosas. A faixa ainda recebeu aquela versão comercial meio esquisita pra tentar ficar mais pop e mais uma vez uma a visão original de Christina foi emendada às escancaras para tentar apelar para o público.

Em determinado momento, acho que ela ficou exausta de ter que lutar (em vão) por esse álbum. Linda Perry disse, alguns meses depois do lançamento, que Christina já o lançou sabendo que teria dificuldades para vendê-lo (mencionando que o mesmo aconteceu com Back to Basics e a história do álbum duplo), mas eu acho que é diferente quando você vê o fruto de anos de dedicação e trabalho ser massacrado sem nem ter uma chance. Acho que para isso ela não estava preparada – e por isso foi tão reconfortante vê-la confessando expressamente, agora na Liberation Tour, que ela de fato odiou ter vivido o que viveu na época de Bionic.

Embora a Sony Music tenha revelado na subsequente assembleia de acionistas que Bionic foi um dos álbuns mais rentáveis daquele exercício fiscal, penso que isso só foi possível porque decidiram puxar o fio da tomada antes que entrasse em curto circuito. As negociações sobre os direitos autorais envolvendo o Bionic Remix foram encerradas e o álbum foi engavetado. As aparições estrangeiras foram canceladas, o que envolvia pelo menos uma passagem a Londres. A turnê tinha sido cancelada de forma tão prematura, que talvez os custos mais relevantes envolvendo a produção dos shows nem tenham sido contratados, já que, àquela altura, Christina sequer havia montado uma setlist. Nesse aspecto, cancelar os shows pode ter sido uma decisão acertada para evitar não apenas perdas financeiras (ou redução comprometedora do orçamento), como também para evitar que a cabeça da Christina entrasse num espiral para baixo, considerando o stress acumulado e a necessidade de começar a divulgar Burlesque quase que imediatamente ao fim dos shows.

E assim, embora Bionic tenha dito um sonoro “oi” quando entrou, acabou saindo sem dar tchau. O payoff de seu conceito criativo veio anos depois, especialmente agora nessa década de aniversário, em que as mesmas pessoas que cortaram suas asas agora reconhecem o marco que o disco teve na discografia de uma das maiores vozes do mundo. O Bionic também é celebrado por sua criadora, e isso é um testamento do envolvimento dela com esse trabalho, apesar das experiências que viveu em seu lançamento. E narro isso sobre o Bionic totalmente desapegado de qualquer coisa, porque ele é o álbum que eu particularmente considero ter a maior quantidade de músicas e letras que definitivamente não fazem meu estilo. Grande parte dele não é nada favorito meu – embora eu reconheça que, quando ele brilha, ele brilha.

Seguindo, Burlesque foi um caso à parte. A divulgação foi pesada e levou Christina para os Estados Unidos, Europa e até o Japão – mas parecia que ela não estava totalmente focada no que estava fazendo e só cumpriu com isso porque seu contrato a obrigava. A qualidade das performances foi até consistente, mas naquela altura, o divórcio já havia sido anunciado e os dois ou três meses fora das câmeras não foram suficientes nem para apagar a imagem desgastada com o público, nem para dar o descanso mental que ela talvez precisasse.

Aquela mulher de apresentação visual impecável do Back to Basics e Bionic teria um campo farto com a imagem de Burlesque, especialmente porque esse estilo sempre combinou muito com ela – mas o resultado foi um mix confuso de visuais igualmente confusos. Era até difícil de explicar, considerando que a  gente estava falando de um dos filmes mais caros que a Screen Gems já tinha feito (incluindo toda a série de filmes Resident Evil), e considerando que ela tinha uma equipe de estilo viajando com ela e o resultado não tinha nada com nada, como se ela tivesse só se arrumado de qualquer jeito e pronto. Para mim, foi só um pequeno sinal de que ela não estava pronta para encarar uma maratona criativa com o nível alto de meticulosidade e detalhe que ela geralmente dedica a seus projetos. Seu comportamento em entrevistas não era errático nem nada, pelo contrário: era centrado como sempre. Ela só parecia #exaustah.

Burlesque
Nas premieres de Burlesque pelo mundo e sobrou até pra pobre da Cher
Classificação:
5/5

Christina Aguilera Brasil

ouça enquanto lê:

Sugerimos a playlist abaixo para uma imersão na leitura. Dê o play e entre nesse clima:

Saiba mais sobre o autor:

autor ilove

Advogado e criador de conteúdo sobre a Christina Aguilera entre 2009 e 2017. Fã desde que viu o clipe de 'I Turn To You' pela primeira vez, no já longínquo ano 2000.

iloveaguilera

Nós do CABR convidamos o ilove para participar dessa coluna especial sobre Liberation e a trajetória da nova Christina, onde ele apresenta seu ponto de vista nesse artigo de opinião.

Artigo: Parte 01 de 02.

CLIQUE AQUI para ler a PARTE 2

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Pula pra 2011, então, quando a oportunidade de fazer uma grana fácil e rápida bateu na porta dela enquanto sua imagem pessoal só seguia se desgastando, agravada por uma série de passos em falso (grandes ou pequenos), boatos envolvendo sua relação com o álcool, a tal prisão, e uma sequência de visuais que davam a entender que sim, talvez um pouco da Christina que conhecêssemos até aqui estava se apagando gradualmente.

E chega The Voice. Eu vou tentar não me estender muito nesse assunto porque há pouco me disseram que é um tema importante nessa trajetória “porém muito entediante”, hahah. Acredito que é porque todo mundo sabe como foi. Mas acho que hoje, olhando pra trás, dá para captar bem o que passou pela cabeça dela: inicialmente uma forma rápida de “ganhar dinheiro sem precisar sair de casa”, The Voice era uma aposta que acabou se tornando um estrondoso sucesso de audiência (atualmente na 18ª temporada!). Um sucesso, inclusive, que só aliava vantagens: Christina teria uma plataforma para se manter presente na indústria, na mídia e na cabeça das pessoas; uma fonte de renda multimilionária que não envolveria os riscos do lançamento de um álbum; uma agenda que lhe permitia cuidar da família à sua maneira; e ainda a possibilidade de fazer uma performance de Lady Marmalade aqui e outra de Beautiful acolá com um (ou trinta) shows privados no mix. Com essa mesma plataforma, conseguiu emplacar algumas colaborações de sucesso para se manter ativa nas rádios.

Dá pra entender o apelo que esse programa teve naquele momento em que ela possivelmente não se via com a energia necessária para criar e lançar outro álbum. The Voice seria um necessário descanso criativo e pessoal. Acho até que a gente consegue acompanhar bem como essa evolução foi acontecendo, comparando o comportamento (e o visual) das primeiras temporadas com as últimas, quando ela passou a recuperar seu brilho costumeiro. Acho que esse respiro foi um respiro necessário para ela, que acabou se estendo um pouco além da conta quando ele se mostrou extremamente cômodo, quando tudo o que Christina conhecia de sua carreira até ali demandava energia demais para dar certo no nível que todo mundo esperava.

E, para não matar todo mundo de exaustão, vou encerrar a parte 1 desse meu raciocínio por aqui. Na próxima parte, vou me estender (bastante) sobre o Lotus e divagar um pouco sobre onde acho que estamos hoje em termos de Christina.

Até a próxima, se você sobreviveu a essa leitura!

-ILOVE.

Continua...

ilove
  • Já li e aguardando (impaciente, rsrsr) a parte dois. Muito consistente esses comentários. Nos faz enxergar algo que passou despercebido com mais clareza. Parabéns!

  • Poxa, mas já? Devorei o texto tão rápido que fiquei esperando a parte 2 assim que finalizei a leitura, adoreeeeei demais relembrar tudo (sdds comentar lá no ilove).
    Falando nisso, ela já declarou que odiou passar pelo que passou no Bionic recentemente? Eu não sabia disso! E publica logo a parte 2, ilove!

    • Hahaha, a Parte 2 já vem 💚

      Sobre o Bionic, ela só comentou brevemente em um discurso pre-Twice na Liberation Tour sobre como a jornada dela tem altos e baixos e como os baixos ajudam a moldar a pessoa. Nisso, ela timidamente fala: “é claro que eu odiei o que aconteceu com bionic na época MAS…”

  • Amei mas queria mais sobre o The Voice, as tretas com o adam, a “reconciliação” a vitória, a briga, enfim, n eh entediante n!!

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